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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

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A Normalidade da Comissão Executiva e a Passividade Anormal da Imprensa

A Comissão Executiva da CGD (CE) considerou que no dia de ontem, 24 de Agosto de 2018, tudo correu com normalidade. Sem nunca o dizer quis demonstrar que não estava minimamente preocupada com a greve em marcha e a concentração à porta da Sede da Avenida João XXI, em Lisboa. Talvez por isso a CE tenha convocado os jornalistas para uma conferência de imprensa pelas 11h30, precisamente a hora para a qual estava marcado o início do protesto dos trabalhadores…

As declarações ficaram a cargo da Dr.ª Maria João Carioca, administradora executiva da CGD. E foi confrangedor assistir à passividade da imprensa, que decidiu não “incomodar”, optando por não colocar questões óbvias e pertinentes. O vídeo que podem encontrar neste link – https://sicnoticias.sapo.pt/economia/2018-08-24-CGD-diz-que-prestacao-de-servicos-decorre-com-normalidade-apesar-da-greve – é meramente exemplificativo, pois é uma versão editada da conferência.

Logo à partida, nenhum jornalista questiona o porquê da presente conferência de imprensa ter sido convocada precisamente para a mesma hora do protesto dos trabalhadores. Pergunta mais que óbvia e que ficou por fazer.

No decorrer das suas declarações, a administradora executiva afirmou que às 10 horas da manhã tinham sido processadas mais de 800 mil operações realizadas pelos clientes. Evidentemente que não existem razões para duvidar deste número. Mas a pergunta que se impunha seria: dessas operações quantas foram feitas de forma automática e informática, ou seja, através da rede Multibanco, Caixas Automáticas ou Caixa Direta Online? Depois disso é avançado o número de 30% como percentagem de adesão à greve (significativo, partindo da própria CE). Questão lógica: o que é que isso significa em termos de agências, ou seja, qual o número de balcões encerrados?

Embora não apareça neste pequeno vídeo, a Dr.ª Maria João Carioca põe em causa a racionalidade dos motivos dos trabalhadores para encetar uma greve, o que fica sempre bem… Nenhum jornalista se lembrou de questionar se o facto dos trabalhadores não verem aumentos desde 2010, terem sofrido cortes salariais no período em que o país foi intervencionado, terem visto a sua carreira congelada durante 4 anos e agora estarem perante a denúncia efetiva dos Acordos de Empresa (AE), a maioria dos quais com pouco mais de 2 anos (ou seja, bastante recentes), onde a proposta apresentada pela CE se consolida num retrocesso civilizacional claro, não são motivos racionais mais que suficientes para os trabalhadores da Caixa se sentirem indignados e optarem por avançar para uma legítima greve.

As únicas perguntas que se registaram estiveram relacionadas com as promoções ou os prémios pagos aos trabalhadores. A administradora faz questão de dizer que esse é um processo normal na CGD. Pois é. E sabem porquê? Porque são situações que se encontram previstas na contratação coletiva! Aliás, em tempos a participação de lucros era uma prática usual na CGD, estando ainda referida nos AE, apesar de agora ter um critério opcional. Mas esta administração decidiu adulterar esse princípio e passar a chamar prémio de desempenho, para dessa forma poder escolher a dedo quem recebe o prémio e qual o montante atribuído a cada pessoa. Também é dito pela Dr.ª Maria João Carioca que querem reconhecer o mérito, pelo que as promoções e prémios são atribuídos após o fecho da avaliação de desempenho do ano de 2017. Mas ninguém se lembrou de perguntar se era normal estarmos no final do mês de Agosto e só agora estar a ser finalizado o processo de avaliação de desempenho do ano transato?

No meio de todos as banalidades daquela conferência de imprensa, a Dr.ª Maria João Carioca avança também a ideia de que a denúncia dos AE e a redução de direitos dos trabalhadores é imperativa para a sustentabilidade da Caixa. Nessa altura, surge a única pergunta pertinente naquela conferência de imprensa, de um jornalista que, por lapso de memória, não me consigo recordar de que órgão de comunicação. A questão era sobre a poupança estimada pela Administração da CGD com a denúncia dos AE. Resposta da Administradora Executiva: não temos essas contas feitos. Perdão?! Se não têm as contas feitas, como é que conseguem afirmar que é imperativo negociar um novo AE a bem da sustentabilidade da CGD? Infelizmente nenhum jornalista pegou nesta questão e seguiu esta linha de raciocínio.

Como trabalhador da CGD é que não pretendo mais ficar a assistir na plateia a um filme no qual deveria ser personagem principal. Recuso ficar numa atitude passiva e denuncio como falsas a normalidade e a paz social propaladas pela CE. Ser conivente com o atual rumo é colocar em causa o futuro da instituição. Porque, tal como a CE, também pretendo uma Caixa sustentável e com futuro, mas cumprindo o seu papel de banco público e respeitando os seus trabalhadores.