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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Verdade Conveniente

 

Em determinada altura da juventude, numa saída nocturna animada por algum álcool, já não me recordando do motivo pelo qual o fiz, coloquei na mesa que a palavra ‘gaija’ tinha origem em ‘gueixa’ e que foi importada pelos jesuítas quando navegaram pelo Japão. Com as nuances do tempo e aportuguesamento da palavra, resultaria assim na ‘gaija’ dos nossos dias.

A informação foi recebida por alguns com um ar de desconfiança mas numa altura em que a internet ainda não andava no bolso, a contestação foi residual e acredito que alguns levaram mesmo a informação para casa como sendo sólida apesar de ter sido ali inventada no momento.

O Jornal i e o Jornal Sol vão este mês encerrar as suas portas dando origem a um novo projecto com 1/3 dos colaboradores. Não são os primeiros casos nem serão os últimos. Na verdade sempre se verificaram aberturas e fechos de publicações, no entanto até há pouco tempo os leitores iam-se transferindo das publicações que encerravam para outras já existentes ou para novas que fossem surgindo.

Agora, desde a massificação da internet e sobretudo do facebook, tudo tem tendência para desaparecer. Já não sem compram discos nem se devoram as letras das músicas enquanto o disco gira no prato e se saboreiam os acordes. Nem sequer os CD’s da era digital se compram. Quando não é pirataria compra-se o formato digital ou se usa um serviço do estilo do MEO Music e lá se vai para a rua de headphones nos ouvidos.

Até os livros foram convertidos em e-books e temos dezenas de títulos na mochila para ler nas horas vagas.

Sinais dos tempos…

A verdade é que não existe hoje diferenciação entre o real e a ficção.

Quando em 1938 Orson Welles emite da cadeira da sua estação emissora a Guerra dos Mundos, uma encenação radiofónica de uma invasão extraterrestre, as pessoas que escutavam a rádio assumiram-na como um facto real e o pânico instalou-se.

 

A 11 de Setembro de 2001, terminado o almoço, dirigi-me ao balcão do restaurante para pagar a refeição. Olho para cima para a televisão e assisto em directo ao impacto do segundo avião contra as torres gémeas.

 

Sem saber ainda do que se tratava o meu primeiro pensamento foi “mais um filme americano ao estilo do Tornado…”

Nestes dias em que a ficção é uma hipotética realidade, tomamos muitas vezes uma pela outra sem sabermos qual é a verdade e qual não é. Um pouco quando não sabemos bem se estamos a sonhar ou se estamos acordados.

 

As minhas referências ao facebook, ao Jornal i e ao Jornal Sol não se encontram aqui neste espaço por acaso. As redes sociais estão inundadas de pseudo-peças jornalísticas com verdades ficcionadas e distorcidas à vontade de quem as escreve por interesse ideológico ou financeiro.

Quando mais escandalosa for a suposta notícia mais esta é lida e partilhada por quem concorda mesmo sendo falsa e por quem discorda mas que sente a necessidade de a ler para a criticar e denunciar o seu conteúdo ficcionado e muitas vezes descabido.

Muitas vezes nem se percebe bem onde se inicia a obra mas para quem se dá ao trabalho de procurar a base ou origem da noticia, com facilidade irá saltar de site duvidoso em site ainda mais duvidoso, muitas vezes acabando numa noticia do passado que nada tem que ver com a agora “noticiada” e quanto mais distante for a noticia da nossa realidade quotidiana, mais facilmente ela salta da ficção para a realidade.

E depois desta, de pouco ou nada adianta tentar repor a verdade dos factos porque a verdade não é tao escandalosa ou interessante como a ‘verdade’ ficcionada.

Não é por acaso que os jornais sensacionalistas falam sempre das desgraças mas nunca acompanham a conclusão dos casos.

A verdade é que nos referimos muitas vezes à verdade inconveniente mas o que nós lemos é a verdade conveniente. Se olharmos apenas para o desporto, que para o caso acaba por ser uma ponderação light, quando uma notícia ou pseudonotícia refere que o nosso clube, olhamo-la como peça ficcionada, exagerada e naturalmente descontextualizada. Quando é de outro clube, naturalmente que se fala ali a mais pura das verdades e temos de apurar factos até às últimas consequências.

Nós, sociedade, queremos ler o eco do nosso pensamento. Quando vemos pessoas a acusar outros, mesmo sem provas, a negar ajuda e serem moralistas de coisa nenhuma, esta é na verdade a nossa verdadeira natureza. Por acaso agora o alvo fácil são os refugiados. Amanhã serão ciganos ou negros e na falta destes serão encontrados outros motivos para se odiar, marginalizar ou ostracizar alguém. Voltando ao tema de ontem, que se diverte com a desgraça alheia, que faz da morte de outros que não os seus, um motivo de festa.

São histórias do passado quando lançávamos pessoas às fogueiras? Guilhotinas? Desmembramentos?

Estes actos de barbárie existem nos nossos dias e se nós não o praticamos, não no nosso sentimento de culpa mas pela desejabilidade social que trazemos na nossa mochila, ficamo-nos pelo gaudio de ver na televisão ou na internet.

Esta é a verdade conveniente.