Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

“Vá com urgência ao seu médico de família!”

“Vá com urgência ao seu médico de família!” começa a ser uma frase demasiadas vezes proferida por médicos hospitalares que observam doentes tanto em contexto de consulta externa (de onde estes poderiam, deveriam ou nem por isso ser encaminhados para o Serviço de Urgência desse mesmo hospital), como por médicos que, pasme-se, observam doentes no próprio Serviço de Urgência (um doente aqui observado ser enviado ao médico de família “com urgência” é no mínimo caricato e no máximo má prática).

Ora, o facto de um doente que acabou de ser observado em cuidados secundários ser “recambiado” de volta para o seu médico de família e ainda por cima “com urgência; ainda hoje se possível!” pode ter diversas consequências.

1 – consequências para o doente: perda de tempo, sensação de abandono ou de que o seu problema não é digno do tempo do médico hospitalar (mas que é “urgente” de alguma forma que não compreende) e frustração quando (por vezes acontece) não consegue consulta com o seu médico de família nas horas seguintes.

2- consequências para o médico de família: sentimentos de culpa por já não ter vagas suficientes para acolher mais aquele doente no seu dia de trabalho (iria ver mais esse doente em vez de quem ou de quê? E quando aquele já não é o único pedido extra naquele dia já sobrelotado?), indignação ao interpretar o gesto do colega hospitalar como uma “ordem” vinda de quem não lhe é superior hierarquicamente (a expressão mais comum é “o colega deve pensar que sou seu secretário!” e “nem uma carta se dignou escrever e agora tenho de adivinhar o que o doente não sabe explicar” ou ainda “se é assim tão urgente, porque não foi ao Serviço de Urgência?”).

3 – consequências para o SNS: uso indevido dos (já poucos) recursos existentes e um abalo na sua imagem (para o doente e para os próprios profissionais, que tomam maior consciência das falhas do sistema)

 

Problemas identificados:

  • Hospitais em burnout (resultado de “dar o litro” desde há muito tempo com um número cada vez mais escasso de profissionais de Saúde). Daqui resulta o “jogo do empurra” ou o “passar da batata quente” ou ainda o “quem vier por último que feche a porta”
  • Centros de Saúde sem capacidade de resposta para pedidos de consulta extra por excesso de utentes por médico de família (um pouco mais grave nos muitos locais onde há doentes que não têm médico de família); também em burnout
  • Doentes com conhecimentos de saúde insuficientes para poder decidir se o que lhes é proposto é realmente o melhor para eles

 

Sugestões/propostas:

  • melhorar o rácio utente/profissionais de saúde no SNS
  • valorizar e dignificar todos os profissionais de saúde e promover a sua articulação
  • apostar na Educação para a Saúde e no empowerment (capacitação) do utente para que se saiba mover entre os vários níveis de cuidados de saúde, sabendo o que esperar de cada um deles e o que é esperado de si em cada momento (para seu bem e para bem da sobrevivência saudável do nosso SNS)