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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Uma CGD forte e pública

Era assunto sobre o qual não pretendia versar. Por ser funcionário da Caixa Geral de Depósitos (CGD), não me parecia adequado emitir opinião. Mas depois de ouvir tanta tolice julguei que este era um assunto demasiado importante para deixar aos comentadores de pacotilha que inundam o nosso espaço noticioso.

 

No passado mês de Abril, a CGD fez 140 anos. Falamos portanto de uma instituição que se mistura com a própria história contemporânea nacional e que desempenha um papel chave na economia. O cariz social que a CGD tem, permite a inclusão no sistema bancário de todas as pessoas que, não havendo um banco público, não poderiam ter acesso a semelhante “luxo”. E como se sabe, hoje em dia é fundamental ter acesso à rede bancária. Existem um sem número de operações, essenciais à nossa existência, que só por esta via se podem alcançar.

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A CGD é também, ou deverá sê-lo, o banco por excelência para apoiar as micro, pequenas e médias empresas. Dando assim um auxílio fundamental para o enriquecimento do tecido empresarial português, não só pelo suporte financeiro, mas também pelo apoio técnico e formativo que possa conceder.

 

Para que tal seja uma realidade, isto é, para que ninguém fique excluído do sistema bancário e para que as empresas de menor dimensão tenham acesso ao crédito e apoio profissional, o carácter público do banco é fulcral. No entanto, o Governo deve explicar como pretende que a CGD desempenhe esse papel, mantendo-se simultaneamente como o principal grupo bancário português, com uma redução prevista de mais 2.500 funcionários.

 

Nos últimos tempos, temos assistido a uma ofensiva sem precedentes à gestão pública da CGD. Diria mesmo que alguns ataques parecem cuidadosamente orquestrados. Uns para descredibilizar o banco público; outros para servirem de arma de arremesso político. Esquecem-se essas vozes que a gestão privada da banca no nosso país não tem sido particularmente exemplar. Nos últimos anos o povo assistiu ao BPP, BPN, BCP, BES, BANIF… Alguns faliram, outros foram salvos por dinheiros públicos, depois vendidos “sem espinhas”; mas todos são casos de polícia! Uma teia que parece emaranhada sempre com os mesmos nomes…

 

A CGD deve também ser o veículo por excelência para a intervenção do Estado na economia. A desregulação do mercado tem levado a sacrifícios aos quais não deveríamos estar sujeitos. Mas é certo que as sucessivas gestões do banco público, principalmente a partir de 2000, não têm sido famosas. Principalmente devido às duvidosas opções dos vários Governos, que inclusivamente põem em causa o regular funcionamento do banco. A ausência de um rumo concreto e os negócios e negociatas estranhamente validados fragilizam a CGD e o legado público que a mesma deve defender. Claro que tal deve ser investigado. Por isso, o anúncio de uma auditoria forense deve ser celebrado por todas as pessoas que querem ver uma CGD forte e ao serviço do país e da sua economia e não ao serviço de interesses privados ou favores políticos.

 

A forma como o mundo actual se organiza, com uma evolução tecnológica que facilita as comunicações e transportes, reforça a globalização e dificulta o controlo estatal da economia. Um banco estatal forte é condição essencial em todos os países, para que essa intervenção se mantenha. E ao Governo cabe dar sinais claros que a manutenção da CGD na esfera pública não se resume apenas à eternização de um repositório de interesses. Essa será a única forma para que o povo compreenda a necessidade de recapitalização da CGD.

 

Montijo, 12 de Julho de 2016