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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

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Um Rio que corre rumo ao passado

No último dia do congresso do PSD, Rui Rio apresentou, perante o país, um discurso dirigido ao passado, descontextualizado face à situação actual do planeta, da Europa e de Portugal, e pobre em propostas. É verdade que Rio soube listar desafios e é também verdade que, apesar de pobre, o discurso incluiu algumas tentativas de ideia. Mas, no essencial, tanto os desafios listados como as ideias esboçadas seriam, quanto muito, enquadráveis nalguma das décadas finais do século passado. Dirigidas ao passado, incapazes perante o futuro.

 

E é assente nessa incapacidade de perspectivar o futuro que Rio, munido de um texto para preencher uma hora ou mais, se revelou à margem dos grandes desafios que a humanidade, no seu conjunto, enfrenta no século XXI: da escassez de recursos, alicerçada numa complexa crise ambiental, à crise dos refugiados, passando pelo aprofundar da desigualdade, nenhuma destas dimensões mereceu sequer uma referência breve no discurso de um homem que quer ser candidato a Primeiro-Ministro de Portugal.

 

Poderão alguns lembrar de que este era um discurso exclusivamente focado em Portugal. Natural ao tipo de congresso que este foi. Mas é aceitável que, em 2018, se procure construir alguma ideia para Portugal fora daquilo que deve ser um entendimento atento do que se passa nas várias escalas em que nos inserimos?

 

Rio exibiu preocupação com a pirâmide etária, em Portugal, e com a sustentabilidade da segurança social. Não, ele não se estava a referir à Sustentabilidade (aquele conceito tão bizarro para tantos políticos Portugueses, que agrega ambiente, sociedade e economia). Rio referia-se apenas à sustentabilidade económica.

 

Desse prisma estritamente económico, a preocupação é legítima. Enquanto vivermos imersos num sistema de segurança social de escassa capitalização e fundamentalmente assente nos rendimentos de uma decrescente população empregada, o envelhecimento da população (em termos relativos) é, por si só, um desafio económico. Mas ensaiar uma espécie de solução em torno da questão da natalidade, como Rio fez, está ultrapassado. É um discurso antigo. Não serão taxas de natalidade mais elevadas a resolver o puzzle. Sobretudo se ‘decretadas’. A taxa de natalidade cresce naturalmente quando a população em idade reprodutiva tem condições para viver, trabalhar, planear e sonhar. As políticas da natalidade são as políticas do bem-estar, da justiça laboral e do combate à desigualdade.

 

Mas não esqueçamos: mesmo assim, a natalidade não deixa de ser apenas um factor. Políticas de imigração inteligentes ajudarão também e até se poderão relacionar de forma ágil com um daqueles desafios globais que Rio ignorou – o dos refugiados. Não obstante, é óbvia e provável a escassez crescente de verbas para pagar reformas e pensões. Seremos capazes de viver com menos? Estamos prontos para a transição? Padrões de consumo mais sustentáveis e um e um custo de vida menor, num país com um Estado Social revigorado, permitirão decerto também ajudar a resolver o puzzle. Mas quem fala de bem-estar? Quem fala da redistribuição necessária? Rio? Não.

 

Rio falou também do território e do despovoamento (já agora, repetindo o chavão típico e errado da 'desertificação'), procurando lembrar a falta de pessoas no interior do país. Soluções? Desenvolvimento sustentável alicerçado no território? Agricultura de precisão, inovação e ecoturismo? Recolocação dos serviços públicos levados pela tormenta austeritária do senhor anterior? Não. Descentralizar as sedes das instituições, sugere Rio. As sedes. O Tribunal Constitucional. Enfim.

 

Foi isto o discurso final do congresso do PSD, numa mescla que incluiu ainda as críticas corriqueiras e habituais à natureza da esquerda que apoia o governo de PS.

 

Em casa, os Portugueses que escutaram este discurso com atenção só podem tirar uma conclusão: dos partidos antigos, dos directórios habituais, pouco mais se pode esperar do que provocações, lugares-comuns e ideias antigas.

 

Entretanto, cá fora, a florir e com ideias frescas, o futuro acontece.