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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Um país, múltiplas repúblicas

Inúmeras combinações possíveis; múltiplos resultados. Previstos todos os cenários… Curiosamente o resultado final seria sempre igual. A inevitável indigitação de Passos Coelho como primeiro-ministro, por parte do presidente da república do PSD. Não surpreende. Herança dos tempos do partido único.

 

Esta é uma república que habita a República Portuguesa. Uma espécie de parasita, que consome os recursos do país e se serve do mesmo para perpetuar uma elite política no poder. São homens de meia-idade, conservadores, moralistas, ricos e caucasianos. Este é o retrato fácil de tirar. De quando em vez, algo sai da norma. Um género diferente, uma pigmentação diferente. Apenas a excepção que confirma a regra.

 

Convém alertar que esta não é a única república que convive dentro da nossa República. Durante anos repartiu o palco com a república do PS. Mas o certo é que esta parece estar a esboroar-se. E com isso o PS abandona aos poucos o seu lugar central, para se fixar à esquerda. Já era tempo. Que sirva para perceber que a política não é, nem deve ser, a arte da dominância, tal como a direita a interpreta. Antes o local de intersecção, diálogo e troca de ideias, que de forma profícua e salutar deve contribuir para influenciar positivamente a vida das pessoas.

 

Temos ainda outra república – a “republicazita irrevogável”, que se coloca constantemente em bicos dos pés para ser notada. Não havia necessidade disso. Sentimos bem a presença desta república de poderes submersíveis, que apesar da ínfima escala possui a força para derrubar milhares de sobreiros. Por muitos marqueses de face oculta que se levantem, não devemos esquecer quem paga pelos abusos cometidos e está a ser responsabilizado por tal, e quem passa permanentemente pelos intervalos da chuva e continua a viver numa realidade paralela.

 

A república do PSD continua a ser certamente a mais poderosa e perigosa. A complexa teia montada sobrevive a anos de oposição. É particularmente influente (e influenciada) no ramo da banca e alta finança. Daí advém por ventura a sua resiliência. Mas estou certo que um dia haverá por lá um golpe de estado. Quando alguém quiser mais do que os seus pares julguem devido. A ganância e a cobiça acabará por levar a melhor. E aí a república do PSD perecerá.

 

Demora a chegar o dia. Mas já no início do ano assistiremos ao primeiro acto do declínio, com o final do mandato do presidente da república do PSD. A partir desse momento respirar-se-á melhor na República Portuguesa.

 

Montijo, 23 de Outubro de 2015