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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Um indiano, uma negra, um cigano e uma cega (ou antes: António, Francisca, Carlos e Ana)

Podia ser o início de uma piada de mau gosto, mas infelizmente vai muito para além disso. Com efeito, o que se discute neste momento não é a competência dos novos membros do executivo, antes o seu tom de pele ou limitações físicas. Tal não deixa de ser bizarro, num país que gosta de se gabar da sua tolerância e inclusão. Isto nem devia ser notícia. Mas é. E já nem falo das parangonas altamente discutíveis e de gosto, no mínimo, duvidoso.

 

A verdade é que isto só é notícia porque num país com uma história de descobrimentos, séculos de miscigenação e com uma diáspora com um peso bastante considerável em relação à nossa realidade demográfica, continuamos a ficar admirados perante a nomeação de pessoas de diferentes etnias para lugares governativos. A razão é simples; nunca antes tinha acontecido. Se tal não surpreendesse ninguém, se não criasse polémica, queria dizer que já tínhamos suplantado esta etapa. Mas não. Ainda não… Estamos agora a começar.

 

Semelhante atitude se verifica relativamente às pessoas com alguma incapacidade física. Embora nesta variante as reacções são bastante mais comedidas, raramente ultrapassando o politicamente correcto, por pudor. Mas a realidade impõe-se, quando elegemos um deputado com mobilidade reduzida e se percebe que a casa dos representantes do povo não está preparada com os acessos apropriados. Ainda para mais quando o parlamento sofreu obras há relativamente pouco tempo. É um ultraje tal actuação. Revela bem a atenção que a nossa classe política tem relativamente às pessoas deficientes. Nunca confiando que alguma vez tivessem capacidade ou votos suficientes para desempenhar funções políticas.

 

Pois assim é. Em Portugal convivem diariamente pessoas de diferente cor, etnia, credos, nacionalidade ou sexo. Pessoas normais e pessoas deficientes. E quando deixarmos de estar boquiabertos, compreenderemos que existe um traço comum que une todas estas pessoas, para lá da vontade de servir o país. É que todos nós têm nome. O indiano chama-se António Costa e não Chamuça, a negra é Francisca Van Dunem, o cigano Carlos Miguel e a cega é Ana Sofia Antunes. Acresce ainda a formação de cada uma destas pessoas e a competência que pode vir a demonstrar, ou não, para desempenhar as suas funções. É nesse prisma que deve ser julgadas. Uma coisa é certa, estarão com certeza muito mais atentos às minorias e à necessidade de trabalhar no capítulo das políticas inclusivas. O que não significa que se alhearão da generalidade da população.

 

Quando me apresentam a alguém dizem este é o Miguel. Não dizem este é o branco do Miguel, sublinhando a minha origem caucasiana. Caso o fizessem reagiria negativamente e de certeza que não me sentiria nada bem. Pois não é o tom da minha pele que me define como pessoa. Se tiverem de me compartimentar e atribuir um grupo, que me rotulem de ser humano. Que é onde cabemos todos e onde me sinto bem…

 

Montijo, 28 de Novembro de 2015

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