Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Um dia no Hospital de Évora

imagem de: http://www.hevora.min-saude.pt

 

 

Esta semana fiz uma visita às urgências do hospital de Évora. Não sei exactamente se era situação de emergência, mas às vezes a mania é pior que a doença e a mania estava a tomar conta do acontecimento. Tentei uma consulta através do seguro do trabalho, mas só havia consulta “amanhã” e quando se está com a mania, “amanhã” é tempo demais.

Sobre o hospital? Estive lá 4 horas de tubo enfiado na veia, para alem disso, como observador.

Não falo apenas de mim, mas do que pude observar, equipa competente e atenciosa e fazer jus à qualidade da saúde pública.

Mas ali sentado por horas, dá para pensar bastante, afinal não há muito mais que fazer enquanto o saquinho por cima da cabeça pinga para dentro da veia ao compasso do cante alentejano.

Ao meu lado um senhor de idade profética e com disposição a condizer. Estar ali foi uma perturbação temporal e tem aquele aspecto de não ter a idade que tem, a disposição que a idade tenta esconder. Um jovem num corpo antigo, mas ainda assim, um jovem.

No canto um homem. Francamente não parece um homem. É claramente um ser humano na forma, mas parece saído de uma prisão de Auschwitz tal é a magreza. Os olhos afundam-se no fundo da cara semitapada por uma mascara de oxigénio. Vai acenando um recipiente com urina na esperança que alguém lhe tire aquilo das mãos. Ao meu lado um homem com os seus setenta e muitos anos, daqueles que ficam doentes só de pensar em ter de ir ao médico. Precisava de oxigénio, mas ia dizendo que os médicos só o faziam ficar pior e pedia incansavelmente a sua roupa para sair dali.

Ao fim de umas horas saiu dali à responsabilidade da família, mas levando o oxigénio.

Para o seu lugar entrou outro homem de idade aparentemente avançada. Tinha consigo todas as maleitas que podem surgir com a idade e pela discrição já fazia anos que estava naquela condição. Uma pessoa faz-se velha assim mesmo que o tempo não passe. Aquilo não era já um homem, era apenas um conjunto de células que ainda funcionavam, mal, no formato aparente de algo que foi alguém noutro tempo.

E por fim o homem que me levou a escrever estas linhas.

Um homem, talvez na casa dos oitenta anos. Aparentava sofrer entre diversas coisas de Parkinson. Tinha um saco de tubos e tubinhos sobre a sua cama. Alimentava-se por sonda, tinha soro, oxigénio…

Não sei qual o grau de consciência deste homem. Passou o tempo a olhar para o tecto como se não estivesse ali tecto nenhum. Parecia estar à espera que se abrisse ali um buraco de luz para o levar para o céu e acabar-lhe a tormenta.

No outro dia falava com um colega e dizia-me ele que era mais difícil ter fé do que não ter. Disse-lhe o oposto. É muito mais fácil viver com fé, sendo teísta, do que sendo ateísta, em que as adversidades são atravessadas sem conforto da suposta ajuda de uma entidade divina.

Não há o conforto de uma vida para alem da vida, a vida acaba efectivamente. Não há milagres nem regalias para quem se porta bem.

Se estás doente é apenas a tua força de vontade que te move em frente e nunca tens o bónus do “se Deus quiser”.

E sabendo isto, lá estava eu a olhar um homem com a expressão oposta.

A determinada altura muda o turno e na passagem de testemunho é indicado que àquele, não haveriam medidas intrusivas de cura.

O que eu pensava para mim era não ter de chegar àquele ponto. Se um dia não puder responder por mim, desliguem-me. Eu sei que o fim é mesmo o fim, pelo menos para mim que sou ateu. Mas aquilo não é vida, aquilo é tortura, é castigo.

A não ser que alguém, vivo e consciente, me consiga condenar por algum mal que tenha feito em vida e mereça estar de castigo, não há razão nenhuma para chegar àquele ponto e assim permanecer.

Sim, falo de eutanásia.

Estou no Alentejo, num hospital publico, e os pacientes representam uma população envelhecida e também conservadora. Por ser envelhecida é fácil encontrar gente no fim de linha nos hospitais.

Talvez esta coisa da eutanásia não seja famosa por estas bandas, mas eu não sou nem destas bandas nem desta geração.

A vida, para mim, tem um principio e um fim em data a determinar e com causas por apurar.

A maioria de nós deseja uma morte breve, de preferência no sono, mas depois, quando se fala de eutanásia vai-se de frente contra um muro invisível.

Aqueles dois sujeitos já não estão entre nós. São apenas corpos, pelo menos um deles, mantido porque a família se alimenta da sua “existência”. No fim dirão “assim já não sofre mais…”.

A sala de urgências tinha varias pessoas, numa urgência a sofrerem, mas em silencio. Não havia gritos ou gemidos de dor. Dava bem para ouvir os pensamentos.

Eu não sei se enquanto teve consciência, aquele homem alguma vez considerou a eutanásia como uma opção ou sequer se alguma vez pensou no assunto. Até podia ter sido o padre da paroquia, mas dele não sei nada senão o que vi. Sei que independentemente do que tenha sido a vida dele, ninguém merece este fim.

Se um dia não puder responder por mim, não me metam de castigo…