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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Um D. João Português (ou a Decomposição Cultural da Sociedade)

Muitas foram as vozes e, acima de tudo, os cliques de indignação pelas redes sociais, quando no final do ano passado Luís Miguel Cintra anunciou o fim do Teatro da Cornucópia. Muita dessa revolta teve origem geográfica no Montijo. Também por isso é difícil entender as cadeiras vazias num sábado à noite, no Pólo do Afonsoeiro da Junta de Freguesia. Como se a apresentação e leitura do primeiro acto – Na Estrada (da Vida) –, duma peça teatral suis generis, não fosse razão suficiente para ver aquela sala a rebentar pelas costuras…

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Um D. João Português, não é uma mera peça de teatro. É um projecto teatral de Luís Miguel Cintra, a partir da adaptação de um texto original de Molière (D. João Tinório, o dissoluto), que conta com o elenco da Cornucópia que o tem acompanhado, bem como com a co-produção da Companhia Mascarenhas-Martins e Teatro Viriato. Para além disso, esta primeira parte do projecto, é apoiada pela Câmara Municipal de Montijo, Junta de Freguesia da União das Freguesias de Montijo e Afonsoeiro e Universidade de Lisboa.

 

Para compreender melhor o que está pode detrás do pano deste plano teatral, ou seja, o que está na sua origem, era essencial ter presenciado a sessão de arranque deste sábado, dia 1 de Abril. Um D. João Português parece ser uma realização de uma vida, que tem sido uma pedra no sapato de Luís Miguel Cintra. E apenas se pode entender (e ver a luz do dia) na sequência do fecho do Teatro da Cornucópia e duma dupla inquietação. Por um lado, o dramaturgo e encenador que confessa não conseguir estar parado. Por outro, o grupo de pessoas que o tem acompanhado que confessam quererem continuar a fazer coisas em conjunto. Dentro daquela família sentimental que se criou ao longo dos anos.

 

O facto de ser uma peça teatral composta por 4 actos, que serão alinhavados e apresentados em 4 lugares diferentes durante o ano de 2017, é uma das suas marcas idiossincráticas. Confirmados estão Montijo e Viseu. Muito provável, Guimarães. E em negociações, Setúbal. No próximo ano será apresentada a peça completa nas 4 cidades escolhidas. Mas a meu ver, e reconhecendo plenamente a originalidade desta faceta, essa não é a principal valia desta iniciativa. O que mais me cativa e chama a atenção é a forma como se partilha com o público o processo criativo que envolve a produção, encenação e montagem de uma peça teatral. O método implementado na sua construção, que pode diferir conforme o encenador, mas que não fugirá muito de caso para caso. E o trabalho que dá. O imenso trabalho desde a sua escrita (ou adaptação) até ao resultado espelhado no palco. Os ensaios de mesa, a troca de impressões, os ensaios de palco, as sensações, as correcções, o ensaio geral… As luzes, os adereços, a acústica… O pano que sobe; o público deslumbrado.

 

Não gosto da palavra privilegiado. Ou melhor, acho que a mesma deve ser correcta e pertinentemente utilizada. Mas provavelmente é o termo que melhor se aplicará àquela dezena e meia de pessoas, grosso modo, que estiveram presentes. O Afonsoeiro teve o privilégio de assistir ao arranque desta aventura teatral, que calcará terras lusas nos próximos 2 anos. Sentia-se no ar o cheiro às cinzas da Cornucópia, mas assistiu-se ao primeiro voo da Fénix. No final, as pessoas eram convidadas a deixar o seu nome e contacto, caso quisessem acompanhar o desenrolar desta andança. Ao sair, olho de soslaio para a folha depositada na mesa e conto não mais do que meia dúzia de entradas…

 

Faço-me à noite atormentado por sentimentos ambíguos. O prazer de me sentir mais rico e completo e a vergonha alheia de perceber que a minha terra por adopção não esteve à altura do acontecimento. Alguém lembrou a meio da sessão, que era noite de Benfica-Porto (mais um…). Soube o resultado no dia seguinte; nada de mal aconteceu. Nada perdi. Aliás acho que naquela noite ganhei mais que qualquer espectador daquele evento desportivo. São pontos de vista e formas de encarar a vida. Num país que sofre uma futebolização que dificilmente se percebe e entende. Esta é a sociedade que se sente ultrajada quando não assinalam uma grande penalidade a favor da sua equipa, mas não querem saber da extinção do ministério da cultura. A sociedade que se sente ofendida por um estádio de futebol estar às moscas, mas não querer saber do fecho de uma sala de teatro. E lamento dizer, mas não; a bola não é cultura. Pode ser considerada um fenómeno social e até pode ser muito interessante para ser estudada por entendidos. Mas não passa de um mero desporto, que ganhou adjectivação de espetáculo (discutível) e que hoje em dia podemos considerar entretenimento (e negócio).

 

Culturalmente somos um país condenado, enquanto não se alterar este modo de pensar. Quer isto dizer que toda a gente tem de gostar de teatro? Evidentemente que não. Mas o problema é que se passa exactamente o mesmo em eventos de outras expressões artísticas, que ou caem no mainstream, e as pessoas até vão porque parece bem, ou se quedam desertos. E o que mais irrita no meio disto tudo é a soberba com que a maioria das pessoas desfilam a sua ignorância. Porque é sempre mais importante saber o nome e a idade de todos os jogadores do clube de futebol de que somos adeptos, do que desligar a televisão e ler um livro…

 

Dia 22 de Abril, pelas 15:00, haverá nova etapa deste projecto teatral, Um D. João Português. Para alguns será apostar na continuidade, para outros é a oportunidade de apanhar este comboio já em andamento, mas em início de marcha. Mantenham-se a par das novidades neste link: http://mascarenhasmartins.pt/Um-D-Joao-Portugues. E apareçam.

 

Afonsoeiro, 3 de Abril de 2017

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