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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Tudo é relativo – a meritocracia

Com maior ou menor frequência todas as pessoas já passaram por isso. Aqueles momentos incómodos em que tomamos conhecimento de que o discurso da meritocracia é pura patranha. O que realmente impera é a “cunhocracia”. E nós fazemos um enorme esforço para não acreditar, mas o sistema está efectivamente montado à volta do compadrio e do interesse pessoal. Alguns já sentimos na pele isso mesmo. O ferro em brasa do rótulo da mediocridade, variadas vezes imposto pelo discurso da intriga e do nivelamento por baixo por parte de quem não tem argumentos para chegar ao mesmo patamar.

 

Quando somos mais jovens, acabadinhos de entrar no mundo laboral, banalizamos a coisa; normalizamos este tipo de comportamento baseado nos laços de amizade que se possam existir entre pares. No fundo um resquício dos tempos de escola. À medida que vamos envelhecendo o caso muda de figura. E quando nos aproximamos do final da vida activa deixamos mesmo de nos preocupar. Desleixamos a nossa atitude perante episódios semelhantes. Relativizamos e encolhemos os ombros – que poderemos fazer? No fundo deixámo-nos de preocupar e o que pretendemos mesmo é calçar as pantufas.

 

Mas é na meia-idade que definimos a nossa posição e decidimos em que campo queremos estar. Ou pactuamos com este sistema e, como um cão bem comportado, esperamos receber um doce, ou optamos por não afinar pelo mesmo diapasão e aí, normalmente, nada de bom acontece... A atitude de denúncia e confronto custa normalmente o isolamento. Ao contrário do que se pensa é mais difícil ser do contra do que parece. Embora haja originalidade em ser a ovelha negra do rebanho, não faltarão dedos acusatórios e atitudes discriminatórias. Por isso deixamo-nos arrastar pela maré sistémica.

 

Bem entrados que estamos pelo século XXI, a igualdade no plano laboral continua a ser um privilégio. Mantem-se actual a máxima “somos todos iguais, mas há uns mais iguais que outros”. A única forma que existe para alterar este modelo é denunciar estas arbitrariedades e sermos assertivos e verticais na crítica. Para que outros que venham a seguir não sofram o mesmo tipo de injustiça de que somos alvo. Este é o dever de quem tem um pensamento global e em prol do bem comum.

 

Se queremos realmente ser coerentes com o discurso da meritocracia temos de libertar a sociedade dos tacticismos de circunstância e premiar o conhecimento e a competência. Esse é o caminho para uma sociedade mais próspera e mais justa. Porque o acesso às oportunidades é também uma questão de igualdade.

 

Montijo, 18 de Dezembro de 2015