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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Trabalhadores com asas

São recorrentes os elogios tecidos aos criativos que dirigem as campanhas publicitárias da Red Bull. E merecidos. Não há dúvida que são originais e eficientes. Confesso que também eu sou fã das animações criadas para vender a imagem de que todos e todas podemos ser passarinhos.

 

Mas, recentemente, houve dois spots radiofónicos em concreto que me despertaram a particular atenção e me fizerem reflectir. O primeiro retrata um episódio passado num qualquer escritório, no início da hora de almoço, em que um chefe pergunta ao subalterno se viu os emails que lhe enviou. Este último responde afirmativamente e que a sua caixa de correio electrónico ia rebentando. E o chefe retorque se assim é, onde pensa ele que vai. O trabalhador explica que vai almoçar. O chefe acha isto uma afronta, mas o empregado descansa-o e encoraja-o a ir consultar a sua caixa de email. O chefe fica espantado com a rapidez, que só se torna possível pela ingestão de Red Bull. No segundo spot, o chefe telefona ao empregado de manhã cedo, a perguntar se já viu o mail, que tem de se corrigir o relatório, o qual deve ser previamente apresentado ao director de tal departamento... Cada vez que o chefe menciona um item, o trabalhador interrompe-o e conclui a frase ou ideia. No fim, o chefe admirado pergunta como é que ele está a fazer isso tudo. O trabalhador desvenda o segredo: está a beber um Red Bull!

 

É evidente que estas situações são ficcionais; caricaturas do nosso quotidiano. No entanto, ambas vão beber inspiração à realidade e existe um denominador comum. Estes trabalhadores são vistos como indivíduos com poderes sobre-humanos, só possível pela ingestão de bebidas energéticas. O mais perverso é que os chefes parecem estar cientes disso, pois ficam admiradíssimos pela eficiência e rapidez protagonizada pelos funcionários. De qualquer forma, não se coíbem a solicitar tarefas hercúleas aos seus subalternos, mesmo à hora de almoço ou de manhã cedo, antes mesmo de chegarem ao local de trabalho.

 

Hoje em dia, a pressão e a polivalência são brutalmente impostas aos trabalhadores. É sempre preciso produzir mais, com mais velocidade e qualidade incólume. O trabalhador tem de dominar inúmeras técnicas e ferramentas. Simultaneamente, cada vez se paga menos e se oferecem vínculos mais precários. Nunca, como nos tempos que correm, o fosso entre salários mais baixos e de topo foi tão evidente. Num assédio constante, que o comum dos mortais dificilmente aguentará, pede-se mais, mais e mais. Contrapartidas? Poucas ou nenhumas. Apenas a noção incutida a martelo, de que se pode sentir um privilegiado por ter um trabalho e vários problemas de saúde, física e mental. Mas isso não é problema. A pessoa é sempre descartável (e de forma ecológica, porque é biodegradável).

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A famigerada quarta revolução industrial, onde se advoga que toda a força de trabalho humana será substituída por robots, já começou. A questão é que de momento, essa máquinas são humanas e propulsionadas a Red Bull. Trabalhadores alados que se desmultiplicam em tarefas e extravasam a linha do humanamente possível. E que provavelmente saem mais baratos às corporações. Sinais dos tempos...

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