Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Terra Ardida, Bombeiros à Porta

 

 

A esta hora, em que me sento para escrever, não há fogos em curso graças, sobretudo, à descida de temperatura e à chuva que caiu durante a noite. Isto ou talvez não houvesse muito mais para arder.

 

Sem Títulodfd.jpg

 

Correndo as redes sociais, uns lamentam os fogos, outros contam a desgraça na primeira pessoa, outros louvam o trabalho dos bombeiros e da ajuda dos populares, outros lamentam as vitimas, outros partilham as redes de apoio a bombeiros e vitimas, mas a larga maioria quer sangue. Tem de haver culpados e para o efeito, o Governo personificado na Ministra da Administração Interna.

Nunca entendi muito bem como se diz que o Homem é o tal do animal racional quando este não demonstra racionalidade ou porque não consegue ou porque não quer.

 

Para quem não sai de Lisboa, talvez não tenha a noção do país real. Não é porque se passou por lá ou se visitou o centro urbano que se tem uma equivalência de conhecimento da coisa.

Afinal não somos todos o Miguel Relvas para ter equivalências de tudo e sobre tudo.

A verdade é que em traços gerais a população é TODA culpada dos fogos, ou melhor, da consequência dos fogos.

A culpa maior será sem duvida a do Estado que é responsável por legislar sobre a matéria e depois fiscalizar para que se cumpra a sua legislação. Refiro-me a Estado porque as consequências destes fogos são da responsabilidade de vários governos e de todos eles, o actual será o culpado menor.

Depois dos fogos de Pedrogão Grande, estive na região (uma de muitas vezes) e pude observar as consequências do fogo. Mas mais do que as consequências, observei os motivos para a aflição.

Por todas as encostas e por todas as estradas, estava tudo carregado de eucaliptais mais ou menos organizados. Zonas que não foram afectadas pelos fogos mostravam eucaliptais plantados ainda este ano. Vi que as matas vão até às portas das casas seja nas pequenas aldeias, seja nos centros urbanos. Vi que as matas chegavam até à beira das estradas, muitas vezes com as copas a tapar as ditas estradas.

Estou certo que os governos não andaram a plantar eucaliptais, estando igualmente certo que permitem e até promoveram a plantação dos mesmos.

Os governos locais são igualmente culpados porque no seu governo de proximidade também não promovem medidas preventivas.

Sobretudo o anterior Governo acabou com a limpeza das beiras das estradas.

Enfim, desde o dono da propriedade que não se preocupa por ter árvores que ficam a 10 metros da parede de sua casa até ao Governo central, somos todos culpados.

Culpar um Governo com 2 anos numa matéria em que as medidas demoram anos a serem executadas é a meu ver, um acto meramente politico sem qualquer base lógica e racional.

Mais se agrava considerando que foi o anterior Governo que mais cortes fez nesta matéria, mais se agrava quando Assunção Cristas tutelava as florestas e durante 4 anos de mandato não fez rigorosamente nada para melhorar.

Mesmo se falarmos do SIRESP, esse mítico monstro que nunca funciona quando é preciso, os defeitos não são novos, mas durante 4 anos de mandato, não foram corrigidos os problemas.

Quem podia melhorar e não o fez, não pode vir agora apontar o dedo.

 

Não apoiar estas manifestações irracionais de pedidos de demissão não é o mesmo que ignorar o problema.

Exijo deste Governo, para aplicar já, medidas que corrijam as décadas de problemas que somados resultam no inferno de 2017.

O que eu exijo deste Governo é simples e traduzindo para uma linguagem acessível a todos:

-Quem tem terrenos que não usa, muitas vezes porque não sabe que os tem ou nem sequer quer deles saber, reverte-los a favor do Estado.

- Ordenamento da floresta acabando com o império do eucalipto, aplicando florestas mais resistentes ao fogo e condizentes com a região.

-Exigir as áreas de segurança em torno de edifícios e nas margens das estradas.

-Exigir, nos traçados de rede MT, AT e MAT, faixas de protecção de linha com a devida manutenção que sirva de acesso a viaturas de bombeiros e corta-fogo.

-Acabar com contractos pornográficos no que toca aos meios aéreos alugados e dotar a FAP de meios aéreos de combate aos fogos com profissionais treinados e formados ao melhor nível.

-Acabar com o SIRESP (pau que nasce torto tarde ou nunca se endireita) e desenvolver dentro da Protecção Civil e em parceria com todas as entidades que respondem às diversas situações de urgência, uma rede de comunicações com capacidade para funcionar quando e onde for preciso.

-Colocar o exercito (o que resta dele) em condição de “verão de campo” patrulhando PREVENTIVAMENTE as florestas.

-Aumentar o contingente de guarda-florestal e bombeiros dotando-os das condições necessárias para o combate a incêndios.

-Descentralizar a rede de comando, passando a comandar as operações quem conhece a zona a intervencionar.

-Estudar e compreender a natureza dos fogos de origem humana e tomar medidas em conformidade, quer punitivas quer correctivas, para diminuir a quantidade de “fogo-posto”.

 

Isto é o que eu exijo que este Governo faça. Algumas delas são de aplicação a curto prazo, outras a médio prazo, outras demorarão décadas a finalizar, mas algum dia tem de começar e o dia é hoje.

Por todas as medidas de segurança e prevenção que se tomem, irão sempre aparecer situações para as quais não havia preparação quer pela novidade quer pela anormalidade, no entanto, tomando estas medidas a frequência seria francamente inferior e é isso que se deseja.

A demissão da Ministra da Administração Interna não resolve nada e por pouca capacidade de discurso que tenha, não é nas costas dela que está a culpa maior. Exijo-lhe, no entanto, respostas para o futuro e daqui por um ano espero ver resultados no terreno.