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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Soberba

Pensava que de Belém já nada me surpreenderia. Mas eis que se suplanta na baixeza. Fazendo tábua rasa da constituição e das boas práticas democráticas, Aníbal Cavaco Silva, o presidente duma coisa que se esqueceu de celebrar, decide entregar a formação de um novo governo a Pedro Passos Coelho. O problema não está na indigitação em si, pois decorrendo dos resultados eleitorais a coligação ganhou as legislativas e, até ver, o PSD é o partido com maior número de deputados. Assim, dita a nossa tradição democrática, que seja o líder desse partido o responsável pela tentativa de formar executivo.

 

A grande questão é que Aníbal entrega essa responsabilidade antes de ouvir os restantes partidos políticos com assento parlamentar! Podem afirmar que isso é apenas um passo desnecessário, mas a meu ver trata-se de um profundo desrespeito pela democracia e pela pluralidade representada nas votações e nas escolhas dos eleitores. Pondo de lado a dicotomia direita esquerda, até porque nunca se consegue perceber muito bem se o PS é realmente de esquerda, a presidência inaugura uma forma arrogante de leitura de resultados eleitorais. Uma espécie de chamo-te a ti porque és do meu partido e nada mais interessa. A direita continua assim senhora do pretensiosismo político que a caracteriza. Como se esta fosse a nobreza política e a esquerda uma cambada de arruaceiros.

 

Mas o que mais espanta são os motivos que Aníbal verbaliza no seu discurso. Diz que a constituição explicita claramente que cabe aos partidos a formação dos governos e a construção de compromissos e acordos nesse sentido. Portanto que não seria ele a substituir os partidos políticos. Depois da sua declaração, de reunir apenas com o líder do PSD e de lhe delegar a tarefa de apresentar uma solução governativa, tem o desplante de dizer que essa é função dos partidos, aqueles que ele ainda nem ouvi? Irá certamente ouvi-los, mas tão-somente porque a constituição assim o obriga. Caso contrário, Aníbal, avesso a qualquer coisa que roce a democracia, nem isso faria.

 

14. cavaco-silva1.jpgDepois vem com um chorrilho de considerações acerca de compromissos internacionais. Obrigações a que o estado português está agarrado. Numa campanha em que nada se falou de NATO e CPLP e muito pouco se falou sobre a UE, vem Aníbal com a falsa questão que não poderia incluir numa solução governativa partidos que pusessem em causa as diretrizes que são o alfa e ómega das nossas relações internacionais, numa clara alusão a forças políticas como o BE ou a CDU.

 

No início do texto afirmo-me surpreso com esta decisão. Na realidade não estou, pois já a esperava. Não imaginava é que fosse tomada desta forma. Ao menos uma ligeira encenação de democracia. Um vislumbre de aceitação das regras da nossa república. Mas nada. Apenas um desprezo total pelo regime, suas instituições e pelas restantes sensibilidades políticas representadas no hemiciclo. Do alto da sua soberba o presidente mostra que além de não saber perder, não sabe também ganhar. Em democracia todas as escolhas dos eleitores merecem o nosso respeito, sejam elas maioritárias, minoritárias ou assim-assim.

 

No fundo é apenas mais um dia normal para Aníbal; o homem que destruiu o aparelho produtivo do país, sua agricultura e suas pescas. Mesmo que agora fale à boca cheia da economia do mar, tal não apaga o passado... Esta foi a individualidade que mais mal fez ao Portugal democrático. E os livros de história reflectirão isso mesmo. Que tenhamos todos memória das crueldades e atropelos à democracia por parte deste homem. E que nos alegremos, porque, se tudo correr bem, esta foi a última atrocidade que praticou à nossa república democrática. Em final de mandato cairá do alto da sua soberba e o resultado não será bonito...

 

Montijo, 6 de Outubro de 2015