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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Sindicato tenta destruir AutoEuropa

 

 

Em Novembro de 1917 os bolcheviques toam Petrogrado depois de meses de campanha ilusória espalhada por toda a Rússia. A luta de classes, a ditadura do proletariado, o suposto poder de decisão dos sovietes, o produzido a quem o produz… um arraial de ilusões que ainda hoje vingam em muitas cabeças apesar de muitas destas ilusões já nem sequer se aplicarem.

 

A verdade é que os sovietes passaram a seguir a doutrina de um comité central e a democracia foi pelo cano. As classes mudaram, mas mantiveram-se e o proletariado continuou só a ser isso mesmo, abelhas a trabalhar para uma causa que não é a sua.

 

E daqui saltamos directamente para a AutoEuropa (AE) onde de um lado temos uma empresa que podemos dizer ser um fiel representante do apogeu capitalista, do outro a verdadeira classe operária, aquela à moda antiga que ilustra a luta das classes, o operário fabril.

 

Factos: por diversas intervenções dos Governos, das quais não sabemos as regalias oferecidas para manter a AutoEuropa, mantivemos até hoje aquela unidade sem grandes conflitos apesar de serem praticados vencimentos acima da média nacional. Pelo caminho a unidade teve fortes flutuações de produção ao ponto de, através de negociação com a Comissão de Trabalhadores (CT), o “soviete” da casa, se chegou ao ponto, imagine-se, de baixar vencimentos a troco da não rescisão de contractos por excesso de trabalhadores face à necessidade de produção.

Hoje, através de nova intervenção do Governo, esta unidade foi seleccionada para produzir a titulo exclusivo um novo modelo e por isso, um aumento de produção.

A AE fez as contas para passar de uma produção de 90 mil para 200 mil e concluiu que tinha de contratar mais 1500 funcionários, já por ai ouvi 2 mil, e calculou que seria preciso aumentar um determinado numero de horas de produção.

Entrou em negociações com a CT e concluíram que uma proposta razoável seria um aumento de 175€ mensais acima do estipulado por lei, 25% para subsidio de turno, uma diminuição de carga horária de 40 para 38 horas semanais e um dia de férias extra.

Em contrapartida, o sábado passaria a ser um dia de trabalho com folgas rotativas, onde teriam direito a um duas folgas consecutivas por mês, de acordo com a lei, por um período de 2 anos.

O resultado da negociação entre CT e Administração, por um lado altera direitos adquiridos em que os funcionários mantêm as duas folgas, mas alternadas, por outro dá algumas regalias financeiras e de carga horária.

Os resultados foram pretórios de rejeição ao acordo e 75% disse que não!

A CT achou que a partir daquele momento não teria condições e demitiu-se dando lugar a outros que possam fazer mais e melhor.

Não conheço o contrato dos funcionários daquela unidade, mas fazendo fé do funcionário que falou na Antena 1, o fim-de-semana consta da descrição laboral como direito adquirido.

Isto quer dizer que só por acordo de ambas as partes é que esse contracto pode ser alterado.

Dito isto, e sabendo disto, os sindicatos entraram em campo.

A Autoeuropa, fazendo fé nas palavras do funcionário, não pode alterar contractos, portanto precisa de negociar uma solução para cumprir as suas metas.

Os trabalhadores da AE sabem que esta é uma unidade volátil e que só existe, ainda, porque alguém interveio, mas que amanhã pode fechar as portas e deixa de haver 1% do PIB, 3% das exportações a troco de uma muito mais pequena percentagem quase sem expressão de desempregados.

Não estou aqui a dizer que a solução encontrada entre a AE e a CT fosse a ideal nem sequer a solução final, mas sei que a conversar com as pessoas entendem-se como aconteceu até agora.

Mas os sindicatos, aqueles promovidos pelos “comunistas” que iniciaram a sua existência a defender que o importante eram os “sovietes”, mas que depois resulta no poder dado a um comité central que depois instrumentaliza sindicatos como sendo suas marionetas, aparecem no terreno e não negoceiam, querem antes impor, não a favor do trabalhador, mas a favor dos interesses do Comité Central.

Os meus amigos sindicalistas irão agora dizer-me que isto são injurias, mentiras, ofensas ignóbeis. Dir-me-ão da cartilha uma quantidade insana de casos de trabalhadores que não fosse o sindicato e estariam na miséria, e se aqui neste espaço provavelmente irão dizer que sou dos “laranjas” (que na verdade são iguais, mas defendem outras cores), ofender, uma corrente de ataques mais ou menos argumentados. Ao vivo são vendedores de banha da cobra, aquela promessa de 1917, ilusões que demoram a desvanecer-se como quem vende rebuçados à porta da escola.

 

Mas basta olhar para a nossa história e perceber exactamente como é que a nossa industria pesada desapareceu, e assim se vê a força do PC.

 

E não sou só eu a dize-lo. António Chora diz algo muito parecido, um homem da casa que sabe o que diz e porque o diz sem papas na língua.

 “Saiu com o sentimento de dever cumprido?
Fui o trabalhador número 144 a entrar na Autoeuropa. Estive na liderança da comissão de trabalhadores de 1996 até 2016. E orgulho-me de ter sido membro de uma CT que começou numa fábrica com 144 pessoas. Saí de lá com 4 mil, contrariamente a muitos sindicatos que entraram com 11 mil trabalhadores e saíram com ninguém, como na Lisnave, CUF ou Quimigal. Tenho muito orgulho no meu trabalho.”

 

A CT da AE deveria voltar à mesa e não um sindicato carregado de interesses externos, e estes sim, negociar pontos de convergência a bem dos próprios porque como disse, a AE hoje existe, mas amanhã não sabemos.