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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Setúbal Participado

Meus olhos inspiram por mais um tempo a maravilhosa paisagem. O dia começa médio; nem calor, nem frio. Mas com o céu límpido, quase translúcido. E isso permite vislumbrar fielmente toda a bucólica beleza da Arrábida. O tal sítio onde a serra encontra o mar, com o rio como testemunha... Virado a Sul, semicerro os olhos para combater a claridade mordaz. Sinto o cheiro da vegetação mediterrânea, que floresce neste solo com vários tons de ocre, intervalado nas formações calcárias. E lá em baixo os minúsculos grãos de areia, que formam as reentrâncias balneares, tão queridas dos veraneantes. Muitos desses grãos são produto da erosão da própria serra. Outros são artificialmente movidos para este espaço por intervenção humana para alimentar estas praias, fazendo a delícia de todos os que se deitam em seu aconchego.

 

Olho para nascente, na direção de Setúbal, e aí começam as minhas dores. A cimenteira que há mais de 80 anos abre uma chaga profunda na serra. Esta insiste em sobreviver em toda a sua magnificência, mas já sem todo o seu esplendor. Mais a sudeste a maravilha natural de uma restinga de dimensões pouco usuais, com mais de 25 km de comprimento, a que se convencionou chamar Troia. Uma formação que tenta invadir a desembocadura do rio Sado, ameaçando constantemente fechá-la. Esforço inglório face a quantidade de água doce expelida pelo estuário. Alguém achou por bem, há muitas décadas, plantar umas árvores de betão na extremidade desta formação arenosa de equilíbrio precário. Depois vieram abaixo e teve honras de directo televisivo, só para percebermos que se iriam reerguer, agora mais modestas, é certo, mas igualmente ofensivas. O acesso a vários locais deste território, que deveriam estar disponíveis a todos os que quisessem comungar da sua singularidade, no cumprimento das regras normais que advêm da preservação dos espaços, está agora fortemente condicionado. Mas entre as águas azuis, os golfinhos raozes não percebem estas limitações humanas e continuam a nadar alegremente acompanhando o movimento dos grandes peixes metálicos, que transportam pessoas dentro.

 

Depois vem-me à memória a notícia que li a semana passada. Sobre um projecto megalómano que pretende instalar um enorme resort na frente riberinha de Setúbal; mesmo frente a Troia. Com hotéis e marinas e táxis fluviais. E apartamentos de luxo e equipamentos culturais, comerciais e desportivos. E tudo ligado por esse estranho cimento que é o Jogo, tantas vezes apelidado de indústria do lazer, mas que facilmente se torna num antro de desumanização. É este o dínamo do empreendimento. Fala-se num investimento superior a 250 milhões de euros e de promessas de emprego e riqueza para todos. Que se trata de um consórcio que reúne a Macau Legend Development Limited – empresa que apesar do nome está sediada nas Ilhas Caimão – vocacionada para a gestão de hotéis e casinos, e a Amorim Turismo, do empresário Américo Amorim, detentora do Hotel e do Casino de Troia. E que já existe um memorando, termo tão descredibilizado nos dias que correm, assinado entre os responsáveis desta joint-venture e o município de Setúbal. Segundo a edil, o governo central e a Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra já estão ao corrente. Fala-se ainda da deslocalização do Clube Naval Setubalense, que no princípio desconhecia, depois recusava sair, mas que agora já vai concordando. Tudo isto para grande espanto do comum cidadão setubalense, que mais uma vez se sente desprezado e desconsiderado em todo o processo de decisão.

 

Falamos de uma área a sul do mercado do Livramento, limitada a este pelo Jardim Engenheiro Luís da Fonseca e a oeste pela Lota. Cuja faixa costeira está inserida na Reserva Natural do Sado. Numa cidade em que a frente ribeirinha tem vindo, pouco a pouco, a ser recuperada e devolvida à população. De repente, anuncia-se este mega projecto como um novo el dorado para o município. Esquece-se que o capital vem de uma sociedade de risco estrangeira com a conivência de especuladores nacionais. E que a edificação desta obra criará uma espécie de gueto que, desta vez, albergará elites, limitando o acesso e a mobilidade a todos os outros cidadãos. Esquece-se o impacto que tal empreendimento poderá causar, mas promete-se, antes mesmo de qualquer estudo ambiental, acelerar a execução de um plano de pormenor. Ou seja, dá-se tudo como adquirido; sem qualquer discussão ou participação por parte dos munícipes, das empresas locais, dos comerciantes, das associações dos mais diferentes quadrantes. Não é sério, que uma obra desta magnitude não seja profundamente discutida na praça pública. Porque estamos numa democracia representativa, soluções desta monta têm de ser reflectidas de forma participada, por toda a sociedade e não apenas pelo poder político.

 

Enquanto desço da sacada serrana, para com a minha família desfrutar também um pouco daquelas extensões arenosas, penso em tudo isto e em muitas outras coisas. Penso numa câmara municipal de gestão CDU, com uma presidente comunista, que parece querer perpetuar uma sociedade dividida em classes. Penso nas críticas à economia de casino, para depois se jogar com a economia local. Penso nos desequilíbrios que tal iniciativa causará. Penso no fim da calma e na pressão sobre os recursos natuarias. Penso em todas as promessas que ficam, invariavelmente, por concretizar quando se iniciam processos desta grandeza. Penso na possível barreira arquitectónica que poderá ser edificada entre as pessoas e o Sado. Penso num futuro feito de exclusões, com turistas de primeira e residentes de segunda. Penso, e muito, no fenómeno da gentrificação... Concluo que nada disto parece sério. E que o progresso de que tanto falam, não é o mesmo que eu almejo; não é o mesmo que o povo merece.

municipio_participado.png

 

Chegado à praia estendo a toalha. Ao longe vislumbro uma bandeira da Câmara Municipal de Setúbal, na qual se pode ler o seguinte dizer: “Município Participado”. E não consegui conter a pergunta: Mas participado, por quem?

 

Montijo, 26 de julho de 2016

 

 

Material de apoio e informação relativo à temática abordada no texto:

http://setubalnarede.pt/diario-da-regiao/mega-projecto-turistico-revoluciona-zona-ribeirinha-desde-o-naval-ate-a-lota-15938/

http://www.distritonline.pt/empresa-macaense-macau-legend-promete-uma-revolucao-na-zona-ribeirinha-de-setubal/

http://www.mun-setubal.pt/pt/noticia/acordo-prepara-revolucao-ribeirinha/4050

http://www.mun-setubal.pt/temps/noticias/original_07_07_16_10_site_investimento_macaulegends_zonaribeirinha_maquete1.jpg

http://www.mun-setubal.pt/temps/noticias/original_07_07_16_15_site_investimento_macaulegends_zonaribeirinha_maquete2.jpg

https://www.publico.pt/economia/noticia/grupo-de-casinos-macaense-investe-250-milhoes-em-projecto-turistico-em-setubal-1737502?page=-1

http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/turismo___lazer/detalhe/macau_aposta_150_milhoes_em_setubal.html

http://setubalnarede.pt/diario-da-regiao/novo-resort-na-zona-ribeirinha-passa-por-joint-venture-com-amorim-turismo-15955/

http://www.macauhub.com.mo/pt/2016/07/08/macau-legend-development-anuncia-investimentos-em-setubal-portugal/

http://setubalnarede.pt/diario-da-regiao/setubal-e-troia-sao-uma-combinacao-unica-15991/

http://setubalnarede.pt/diario-da-regiao/naval-setubalense-ja-aceita-colaborar-com-novo-empreendimento-turistico-para-a-zona-ribeirinha-da-cidade-16366/

http://www.macaulegend.com/attachment/201607071911171764961603_en.pdf