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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

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Sacrificar a Caixa

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Marcelo, diz que a recuperação da Caixa exige sacrifícios que em geral se justificam. António, afirma que apesar do Estado ser o único accionista da Caixa, o Governo não se intromete na sua gestão. E desta forma dão carta-branca a Paulo Macedo e seu bando, administradores que na sua maioria são oriundos do BCP e BPI, desconhecedores do que é a realidade de um banco público e de tudo o que isso implica.

É uma posição cómoda e confortável para os decisores políticos descartarem-se de responsabilidades relativamente à Caixa, mas é um crime para a economia nacional não interferir na defesa do banco público. Muitos dos clientes que a Caixa alberga seriam pessoas à margem do sistema bancário caso não existisse um banco público. Um banco cujo único objectivo não é, nem deve ser, a prossecução do maior lucro possível. À Caixa é exigido um serviço público que pouco diz à restante banca comercial, mas que muito diz aos portugueses.

Quando Paulo Macedo afirma que ninguém pode pedir à Caixa Geral de Depósitos para ficar em todos os sítios onde os outros bancos não querem ficar, está no fundo a dizer que não acredita nem perfila da ideia de que a Caixa dever prestar um serviço público. Esta afirmação implica condenar inúmeras comunidades à exclusão bancária. Pois se não for a Caixa a prestar esse serviço bancário, nenhum outro banco o fará.

Ao mesmo tempo Paulo Macedo afirma que a qualidade dos serviços deve ser paga. Mas de que qualidade ao certo é que o CEO está a falar. Das agências com tempos de espera muito acima do desejado e com quadros subdimensionados? Ou será da rede de dependências que definha e dá cada vez menos opções aos clientes? Provavelmente fala das comissões bancárias que orgulhosamente afirma estarem finalmente ao nível da restante banca, o que apenas fará com que mais clientes voltem as costas à Caixa. Convém perceber que podem subir-se as comissões bancárias na proporção que se entender, mas se não houver cliente para as pagar dificilmente estas serão uma fonte de rendimento considerável.

No fundo, esta Comissão Executiva pretende fazer da Caixa um banco igual aos outros. Quando o que tornava a Caixa Geral de Depósitos interessante e importante no sistema financeiro nacional era ser precisamente um banco diferente dos demais. Onde os trabalhadores cultivavam junto dos clientes relações de confiança vitais para o negócio bancário e para a construção da imagem de solidez da Caixa. Uma marca de credibilidade que parece agora estar a ser desbaratada.

Mas a recapitalização lá se concretizou e o plano de reestruturação avança a todo o vapor. Reestruturação que, como todos sabemos, é um eufemismo muito utilizado quando o que se pretende dizer é que se irá reduzir o número de trabalhadores. O desrespeito pelos trabalhadores é bem patente na Caixa e no sector bancário em geral. Os sindicatos e comissões de trabalhadores bem têm denunciado as pressões e atropelos. Jornadas laborais intermináveis e não remuneradas. Objectivos inatingíveis. Transferências de local de trabalho constantes e arbitrárias. Perda de direitos e retrocessos na contratação colectiva. O medo instala-se e a cultura do individualismo ganha terreno. Tudo é permitido para embaratecer e amansar uma classe de trabalhadores bancários que já foi sinónimo de prestígio, mas que caminham a passos largos para serem os novos precários. Para a opinião pública, que assistiu nos últimos anos aos milhares de milhões de euros de dinheiro público injectado pelo Estado para resgatar a banca, é difícil explicar que a culpa não é dos trabalhadores do sector bancário mas dos banqueiros. Perniciosamente, os ciclos de decisão dão-se muito bem com essa confusão, pois torna mais fácil tomar medidas que por princípio seriam mal recebidas e impopulares. Desta forma, a generalidade da população não contestará a “necessidade de reduzir” mais de 2200 trabalhadores na Caixa Geral de Depósitos até ao ano de 2020…

O rumo que a Caixa está a tomar pode muito bem apresentar resultados imediatos. Disso não terei dúvidas. É bem possível que a actual gestão apresente resultados positivos já em 2018, mercê de cortes e recortes e redução de trabalhadores. Mas quando o efeito imediato dessas medidas passar, de onde virão os resultados positivos e lucros necessários? Esta instituição secular não chegou aos nossos dias por decisões efémeras. As medidas que estão a ser postas em prática podem muito bem hipotecar o futuro do banco público e os decisores políticos assistem impávidos e serenos; cúmplices por omissão.

 

 

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