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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Revisitar Nice

Na altura que aconteceu Nice fiquei chocado. Mas precisava de algum distanciamento para analisar as coisas friamente. E agora que já passou algum tempo continuo sem fazer ideia do que mais se possa dizer acerca de semelhante barbárie. Já tudo foi dito e repetido. Nada mais tenho a acrescentar.

 

No entanto, uma coisa Nice nos ensinou. Que não é por vivermos num estado de emergência constante que impedimos o terror. Com efeito, França já desde 13 de Novembro de 2015, aquando dos atentados de Paris, que se encontra em alerta máximo. E não foi por isso que se evitou Nice.

 

Os benefícios dos estados policiais, com dispositivos musculados e proibicionismos galopantes, são altamente duvidosos. Excepção feita aos regimes autoritários, claro está, que agradecem esta opção. Mas numa democracia moderna, onde a liberdade e o estado de direito devem andar em par, pouco ou nada se ganha. Aliás, as interdições até podem ter o resultado contrário ao esperado.

71. Revisitar Nice.jpe

 

Os proibicionismos são normalmente formas de lidar com aquilo que desconhecemos ou receamos. Quando proibimos o uso de burquinis nas praias, além de interferirmos com as liberdades individuais e religiosas, e mesmo com a desculpa de evitar conflitos sociais latentes, abrimos uma caixinha de Pandora. O que virá a seguir? Proibimos as mini-saias, porque podem provocar violações? Proibimos a homossexualidade, por dar azo à homofobia? Proibimos os não caucasianos de circularem em áreas abastadas, porque podem causar o pânico nos residentes? Proibimos o futebol, porque não raras vezes redunda em violência? Quem achou que fazendo regulamentos sobre a forma como as mulheres se vestem (ou despem) na praia iria resolver a questão do terrorismo foi de uma ingenuidade tremenda. Digo ingenuidade, para não dizer ignorância.

71. protesto_burquini.jpg

 

Pessoalmente, acho que todas as religiões estão a mais. Mas entendo que todas as pessoas têm direito de professar a fé que muito bem entendem. E manifestá-la de forma correcta, desde que não interfira com a liberdade alheia. No caso dos burquinis, a manifestação não incomoda ninguém. A não ser as próprias pessoas que o vestem, se o fizerem coagidas. Mas essa é uma outra questão. E já existem leis, e bem, que defendem as mulheres contra este tipo de violência.

 

Revisite-se Nice, Paris, Londres, Madrid, Bruxelas… Compreenda-se que mostrando intolerância estamos a fortalecer os argumentos de quem nos ataca.

 

Montijo, 25 de Agosto de 2016

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