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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Resposta à apologia da caça, do Miguel Sousa Tavares

Neste último sábado, publicou o Miguel Sousa Tavares uma ‘apologia da caça’, no Expresso. Do conjunto de referências e afirmações políticas disfarçadas de postal ruralista que o autor teceu, não posso deixar de comentar algumas pérolas.

Tavares começa por propor: “aqui fica um breve registo do que é uma jornada de caça — toda ela e não apenas o momento da morte da peça, que tanto incomoda os urbanodepressivos politicamente correctos”.

A primeira correcção que me apraz fazer é a de que não se trata de uma ‘peça’. Esse é o termo que o pseudoruralismo de facto, utiliza. Mas antes de ser uma ‘peça’, é um indivíduo. Nasceu para um bilião de outros finais que não o desenlace da cobardia dos homens.

Mais à frente, Tavares tenta contextualizar a caça desta forma: “Para que se possa tentar entender, estando de boa-fé, o que é a caça como demonstração de amizade e companheirismo (num tempo em que essas coisas se passam fundamentalmente nas redes sociais), qual a importância da caça como acto cultural de fusão com a natureza, com as suas regras, os seus ciclos e os dos animais, e qual a íntima relação entre a caça e a preservação da natureza e da agricultura.”

Este parágrafo merece particular atenção. A amizade e o companheirismo constroem-se de muitas formas. E grande parte delas pode permitir, de facto, ‘fusão com a natureza’ – da biologia ao parapente, passando pela fotografia. Mas a forma que Tavares escolheu para a apologia – a caça – essa coloca-o numa guerra cobarde contra a natureza (a natureza que gosta de chamar à conversa, como se a compreendesse) e está na lista das actividades humanas que mais contribui para o declínio da biodiversidade global. Por mais crónicas de beto deslumbrado com os melhores postais selecionados do provincianismo chique (tão em voga nesses bocais urbanodepressivos e sofisticados a que regressas depois da jornada) que escreva, esta realidade não se altera nem muda. Uma causa não se torna consequência por mais que Tavares teime ou insista.

Um pouco mais abaixo, no texto, Tavares alvitra sobre as vítimas para (ironia!) vitimizar quem dispara: “três escassos meses e meio em que se pode caçar todas as espécies de penas (pombos, patos, rolas, codornizes, tordos, perdizes, galinholas) e coelhos, lebres e javalis. Infelizmente, tudo isto vem rareando, por diversas razões, que não o excesso de caçadores, que todos os anos diminuem (eram 300 mil há uns 15 anos, são 97 mil este ano). E os caçadores diminuem por várias razões: a crise económica, as alterações climáticas responsáveis pelo desaparecimento de espécies de arribação, como os pombos bravos ou as galinholas, o abandono da agricultura, afastando rolas ou perdizes, a doença devastadora dos coelhos e lebres, ainda sem solução à vista, ou o cansaço dos próprios caçadores, desalentados por uma perseguição burocrática na obtenção de licenças que parece destinada a extinguir de vez esta última espécie”

Tês meses e meio de bombardeamento de chumbo de um território que é tanto dos Tavares desta vida, como meu também, não são escassos, são três meses e meio a mais. Quanto às razões pelas quais ‘tudo isto vem rareando’, começar logo por uma mentira, inocentando a perseguição directa que os caçadores fazem a espécies que estão desde logo a enfrentar doenças epidémicas, destruição de habitat e alterações climáticas, é confrangedor. São ainda 97 mil? Se há decréscimo lento, é este. E a metáfora da ‘espécie’ foi fraquinha – nem raça é, é mesmo só um grupelho que sabe demais sobre armamento e pouco ou nada de etologia. Se a Tavares o que o preocupa é a sobrevivência das espécies, eis o meu conselho: guarda o canhão e começa finalmente a estudar o que persegues.

Há medida que Tavares vai descrevendo a jornada, outras tiradas algo reveladoras vão sendo tecidas: “um desses outros dias em que às sete da manhã já estamos ensopados até aos ossos, patinando na lama e maldizendo o vício que nos faz saltar da cama de madrugada num sábado de manhã, mal dormidos e maldispostos, para ir campos fora, com os cães à frente, ou ficar de tocaia debaixo da enxurrada a ver se alguma coisa voa”

Tavares, não precisas de chacinar para patinar na lama. Também eu o fiz, muitas manhãs, bem cedo, mas para conhecer e estudar. E talvez por isso o tenha feito, não ‘maldizendo o vício’, mas satisfeito e curioso. Experimenta. Fazia-te bem à alma. Que sobre.

Num outro momento, Tavares disserta sobre o tiro: “O que existe, sim, é o prazer do tiro certeiro, a perdiz que se lança lá de cima, em voo silencioso e fugidio”

Caro Tavares, se pretendes ser certeiro, procura um alvo que não respire. O teu prazer não vale mais que a vida dos outros. A perdiz ‘que se lança lá de cima’, não se lançou, está em queda, desfeita nas hemorragias para teu prazer ‘certeiro’. Sabes-lhe apreciar a queda mas nem te passou pela cabeça apreciar-lhe o voo – sem interrupções nem tiros. Escreves como um intelectual mas sentes como uma besta. Desculpa lá que te o diga desta forma, mas não existem eufemismos para a morte.

A certa altura, Tavares regressa à questão das doenças que perseguem os coelhos há décadas, por cá: “É também no Outono que se fica a saber como correu a criação das perdizes ou dos coelhos — e, sobretudo, se estes sobreviveram à nova moléstia que os dizima justamente em Julho e Agosto, quando a caça à espécie está interdita.”

À moléstia que os dizima no Verão, não se pode seguir pelo menos um Outono em paz? Não. O teu tal ‘prazer do tiro certeiro’ tem a primazia. És tu a moléstia que há-de dizimar o resto nesses ‘três escassos meses e meio’. Não é difícil perceber como se constroem vórtices de extinção, pois não Tavares?

Numa fase mais avançada do texto, Tavares debruça-se romanticamente sobre as armas: “Um arma de caça bem estimada e bem mantida dura uma vida e é passada de geração em geração, acumulando histórias e memórias que, para um caçador, a fazem quase deter o estatuto de membro da família.”

Este sentimentalismo em torno de um objecto construído para matar não tem nada de romântico. Não vale a pena teimar nessa ideia de romantismo bacoco para tentar tingir de azul celeste o que já está tingido de hemoptise. Tavares, a minha geração ‘urbanodepressiva’, que sai para os campos para apreciar, fotografar e conhecer, criando laços tão ou mais fortes que os que constróis nas tuas razias, dirige melhor esses sentimentos românticos para quem respira.

No fim, Tavares revela o preço que a natureza paga pelos dramas de identidade de uma humanidade confusa: “Uma fraternidade de homens cansados, mal dormidos e sujos vai sentar-se à mesa com a alegria dos tempos das cantinas da escola ou da tropa.”

Meu caro Tavares, aqui revelas bem o que te emociona – essa nostalgia fraterna que te ajudou a moldar uma identidade. Sabes que podes ter identidade mesmo se fora desses rituais masculinos? Não tenhas tanto medo, aprecia mais a vida.