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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Resistir é vencer

Desperto com a sensação de não ter chegado à adormecer. Lembro-me de uma madrugada agitada, em que sonhos bem reais me apoquentaram. Paulo, João, Ana, Maria, Ricardo, Rita, Marta, Rui, camaradas e camaradas que ziguezagueavam meu pensamento. Sobressalto-me. Corro para o computador para aceder aos resultados das eleições legislativas. Confirmo os meus medos. Afinal aconteceu mesmo. Parecia tudo tão distante no tempo e simultaneamente tão perto. A falta de descanso prega este tipo de partidas à mente. A difícil distinção entre ficção e realidade.

 

Aos poucos retomo a presença de espírito. Começo a recuperar os rostos de desalento e de incredulidade da noite passada. As expressões deixavam perguntas, dúvidas, súplicas. Ninguém conseguia entender o como, nem alcançar o porquê. Aquele estava lá entre nós – o pior dos cenários possíveis. O tal que todos nos tínhamos recusado enfrentar. Tentámos apagá-lo da equação, mas ele persegui-nos, adoptou-nos.

 

A qualidade, as ideias, o trabalho árduo, a dedicação, as pessoas Tudo o que caracteriza esta candidatura não merecia tal desfecho. Sentimos-nos injustiçados, incompreendidos. Mas esse sentimento é o mesmo que deve pairar em muitos outros locais daquela noite eleitoral. Em todos os cantos pequenos que não conseguiram passar a mensagem; em todos os cantos maiores que sentiram não alcançar os objectivos. Mas acima de tudo a grande incógnita: o que fazer com tanto trabalho desenvolvido? As nossas propostas para o país não merecem ficar fechadas; inutilizadas. Precisam de sair da escuridão.

 

A frustração não pode levar a melhor. Baixar os braços não é solução. Que exemplo deixaremos se desistirmos à primeira adversidade. Os cenários que se adivinham no horizonte não são nada animadores e o futuro precisará de todas as pessoas que julgam que a lógica da austeridade neoliberal não é caminho. Todos sabemos que o país não ficou resolvido ontem. Longe disso. É tempo de reagrupar as tropas. Sarar as feridas e reflectir internamente, num exercício de auto-crítica que todos deverão realizar.

 

Abrimos a porta da cidadania. Temos o dever de resistir à forte corrente de ar que força o seu fecho. Devemos isso às pessoas que fomos conhecendo pelo percurso e que anseiam por um partido assim: aberto; plural; participativo. Multipliquemos os nossos esforços para dar a conhecer ao povo deste país que o LIVRE / Tempo de Avançar existe. Que aqui discute-se Esquerda, Europa, Ecologia. As ideias são bem-vindas e o pensamento não se fecha nas elites. Aqui cultiva-se a Liberdade, árvore que irá dar frutos.

 

Temos a obrigação de resistir. Devemos isso uns aos outros e a todos e todas que apostaram em nós. E mesmo que o nosso quartel se desmorone, construiremos um novo com seus escombros. Porque resistir é vencer. E um dia… Podem crer que venceremos!

 

Montijo, 5 de Outubro de 2015