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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Resgatar o poder local

(Texto publicado a 13 de Outubro de 2016 no Diário da Região)

 

O poder local é vulgarmente visto com um certo desdém. Como uma espécie de parente pobre da democracia. Tirando os municípios de Porto e Lisboa, pouco ou nada se fala dos restantes, seja em altura eleitoral, seja durante o cumprimento dos mandatos. Como consequência (e talvez também como causa) os partidos vêem afastar-se as pessoas de maior valor das suas estruturas locais, desviadas para outros voos ou desiludidas com esta realidade. O resultado é a constituição de uma gestão autárquica medíocre e de fraca formação.

 

Este ciclo vicioso leva a que a realidade política local resulte numa enorme feira de vaidades. Onde é sempre mais importante parecer do que ser (ou fazer). Já não basta cumprir as funções para que foram eleitos/as. É preciso publicitar aos quatro ventos que se trabalha. Como se o mandato que cumprem não obrigasse a isso mesmo. É profundamente ridículo que os/as edis andem com um séquito de fotógrafos e jornalistas atrás, sempre que saem do seu gabinete para verificar o regular funcionamento da gestão camarária. Era como se quando eu fosse trabalhar levasse um jornalista atrás, para testemunhar que estou efectivamente a desempenhar as funções a que estou obrigado...

 

A isto se convencionou chamar de “marketing político”. Muito para além da obra e do trabalho, é a forma como tudo é comunicado que interessa. E este circo mediático, de pendor provinciano mas de populismo eficaz, transporta a discussão do campo do essencial para o campo do acessório. Debate-se o buraco da estrada tapado e a passadeira pintada invés de um plano de mobilidade e circulação; o edifício recuperado invés do um plano de revitalização do centro urbano; as novas paragens de autocarro invés do serviço de transporte público; o concerto de ocasião invés do projecto cultural; as papeleiras colocadas invés da higiene e limpeza do espaço público...

 

Para que o poder local veja resgatada a sua decência são necessárias várias coisas em simultâneo. Que a comunidade participe activamentena política local, vislumbrando para além da cortina de fumo da comunicação autárquica. Que os partidos e movimentos de cidadãos apostem na seriedade e competência, em detrimento da demagogia e populismo. Que a comunicação social nacional noticie para além de Lisboa e Porto. E que a comunicação social local seja fiscalizadora por excelência do trabalho autárquico. Tudo se resume a discutir projectose políticas, mais que discutir pessoas. Se assim for, aos poucos, será devolvida a dignidade aos órgãos de poder local e restabelecida a relação de confiança entre eleitor/a e eleito/a.

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