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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Rejeição

Rejeito! Liminarmente; irrevogavelmente. Nem sei bem o quê, mas rejeito. É certo que ainda há coisa de um mês incluía proposta atrás de proposta deste mesmo programa, numa tentativa de entendimento para reedição do bloco central. Mas a realidade é mutável e a minha coerência política mutante. Portanto rejeito.

 

Agora sou oposição, por isso tenho de rejeitar. Ser do contra. Desempenhar o papel que durante tanto tempo critiquei à esquerda radical (argh! asco… cospe; cospe). Criticar tudo o que à esquerda mexe. Os canhotos, filhos do demónio, derrubaram quem tinha ganho as eleições. Eu é que devia estar no governo. Tenho o orgulho ferido. Sinto-me rejeitado, por isso rejeito.

 

Será com emoção que apresentarei a moção. De rejeição, claro está. Para deixar claro que não foi este governo que o povo (palavra engraçada, esta) escolheu. Pouco interessa que nas eleições legislativas se escolham os representantes dos eleitores à Assembleia da República. E que o governo se forme a partir do peso das várias bancadas e da sua composição. Eu rejeito a democracia representativa. O povo sabe lá escolher…

 

Não é a primeira vez que a esquerda está em maioria no parlamento. O que é que lhe deu agora para se entender? Isso merece a mais pura rejeição. Não há quem aguente uma esquerda unida. E não é justo de resto. À direita somos só 2. Às vezes até fingimos que nos desentendemos só para criar suspense, mas no fundo queremos o mesmo. Que neste momento é rejeitar o programa de governo.

 

Havia ainda agenda por cumprir. Tinha coisas para vender, cultura para destruir, sociedade para esvaziar. Um país inteiro para rejeitar. Sim, renunciar a Portugal o seu futuro. Era isso que faltava… Estava quase. Só mais um mandato e se calhar cumpria o desiderato. O país cobaia neoliberal. Onde os mais desfavorecidos se ajustaram a terem cada vez menos. E mesmo assim não rejeitaram totalmente essa realidade nas urnas. Nas eleições o medo venceu. Eu colhi os louros. Ou quase.

 

Juro que lhe senti o cheiro. O odor do poder que emana do couro daquela cadeira. Ora bolas, estive tão perto e agora tão longe. Portanto só posso rejeitar. Rejeito até a minha mão esquerda. Rejeito um governo que emana da legitimidade do voto, cuja composição é normalíssima por essa Europa fora. A mesma União Europeia que era um dos compromissos que se deveria respeitar a todo o custo por um futuro governo. Mas rejeito esse pregão. Não estamos preparados para esta maturidade democrática. Rejeito o entendimento, o consenso. O único compromisso que pode existir é um que me inclua. Empáfio que sou só posso rejeitar. Tal como fui rejeitado. Pelo menos 4 vezes.

 

Montijo, 1 de Dezembro de 2015