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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Refúgio da Liberdade

  ilustração retirada do site do Centro de Acolhimento Para os Refugiados

3. Refugiados - desenho-infantil CPR.jpg

 

Não queria escrever sobre isto. Nunca quis. Aliás, preferia que ninguém escrevesse sobre o assunto. Que este apenas pudesse surgir da pena de um ou outro escritor com uma imaginação mais negra… Mas embora seja livre para escrever o que quero, não consegui escapar a esta temática que é também uma questão de liberdade.

São muitos e muitos os milhares de pessoas, oriundas da margem sul da bacia Mediterrânea, que entregam as suas vidas à sorte. Elas são, efectivamente, refugiadas. Fogem de países em guerra ou nos quais são perseguidas. Vêm para a Europa por necessidade, mas também na esperança de encontrar liberdade, compreensão e um futuro. A maioria delas não querem sair dos seus países de origem, mas não lhes resta outra alternativa.

Irrita-me sobremaneira a forma como tem vindo a ser tratado este tema em vários órgãos de comunicação social e por uma parte considerável da sociedade. Vulgarizou-se a expressão “migrantes”. Não raras vezes tenho a sensação de estar perante um documentário da National Geographic Channel que trata dos percursos sazonais encetados por certas aves. Sobressalto-me para perceber que afinal eu é que estou certo. Trata-se de uma questão de direitos humanos. Do mais elementar que pode haver – do direito à vida.

Em desespero estas pessoas fazem-se ao Mediterrâneo. Enfrentam suas vagas e aceitam seu fado. Na convicção de que este mar as libertará. E essa convicção faz com que estejam dispostas a pagar um preço bem caro pela liberdade. Muitas vezes com a própria vida. São gentes que em desespero preferem morrer tentando alcançar a liberdade, do que viver sob o espectro constante de uma morte anunciada.

Passando os caprichos mediterrânicos e chegando a terra europeia, as dificuldades não diminuem. Vítimas duplas de uma crise que os nossos líderes teimam em não solucionar e de uma campanha que os identifica como ilegais e oportunistas. E a busca da liberdade aprisiona-os novamente. Ninguém parece querer ser responsável por este problema, quando está bem patente que a responsabilidade é de todos e que as constantes intervenções no Norte de África e Médio Oriente pelo chamado mundo ocidental deixam a descoberto a nossa quota-parte nesta situação.

À Europa cabe relembrar os êxodos que presenciámos nas duas grandes guerras. O amor que cultivamos pela liberdade não deve ser apenas para consumo interno. O espírito universalista e de fraternidade deve ficar patenteado na recepção destes refugiados e na sua integração na sociedade. Sejam essas soluções temporárias ou permanentes. Deixemos claro os princípios que norteiam (ou deveriam nortear) a União Europeia, na ajuda que devemos e estes seres humanos, a quem lhes foi roubado o passado e parece não querer ser oferecido um futuro…