Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

HTML tutorial

Raríssimas Honestidades

 

Acho interessante determinada gente que acusa os elos mais fracos da sociedade por serem subsídio-dependentes. Não é que seja uma inverdade, mas não se pode generalizar até porque é destes meios sociais que os tais críticos encontram mão-de-obra barata para as suas empresas, para limpar as suas casinhas.

Já, a propósito da candidatura de André Ventura, tinha dito que o problema existe e é natural que exista já que a fiscalização é residual. Diria mesmo, para inglês ver.

Já no extrato que acusa, encontramos o mesmo problema, mas de outra dimensão, a tal corja de colarinho branco. Cada um destes equivale a largos milhares dos tais “subsídio-dependentes” e são normalmente mais difíceis de apanhar. Usam do seu poder e dinheiro usurpado para silenciar quem os rodeia. Não é por acaso que enredos como o de Sócrates ou de Ricardo Salgado não se resumem a estas figuras, ainda que sejam as mais mediáticas.

Esta malta rodeia-se de consultores, assessores, advogados obscuros e taciturnos que sabem como contornar a legislação, fazendo desaparecer provas de irregularidades, fazendo contabilidade criativa para que o errado pareça correto.

Como se tem apanhado esta malta?

Dizem que “zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades”. Este será o caso típico de quem esperava receber uma parcela e por qualquer motivo, saiu da folha de pagamentos. Zangou-se, denunciou. Quem não tem ética, vende-se a quem paga mais e existe a probabilidade de o denunciante ser pago por outra parte interessada.

 

Outra hipótese é quando alguém com ética e talvez pouco a perder, denuncia.

Recordo-me do fiscal municipal que denunciou graves irregularidades na construção do hospital pediátrico de Coimbra. O fiscal preparava-se para entrar na reforma e as represálias quanto ao seu futuro já não poderiam ser muitas.

A maioria de nós precisa do seu trabalho e sem ele as contas lá de casa ficam difíceis de pagar. Se muitas vezes engolimos sapos ao cumprir tarefas, ignorando a legislação que protege o trabalhador, algo que pode comprometer o seu trabalho, por muita ética que se tenha, pode estar fora de questão. É comer e calar.

Mas de tempos a tempos temos pessoas que denunciam o que acham incorreto e foi o caso do ex-tesoureiro da instituição Raríssimas.

São efetivamente raríssimas as pessoas que o fazem, mais raríssimas as que conseguem que as suas denuncias sejam consequentes.

Ao que parece, este ex-tesoureiro já tinha feito a denuncia para a Segurança Social em agosto e de novo em setembro. Foi ignorado.

Sabemos que fomos ignorados quando enviamos uma carta e não há sequer uma resposta a acusar a receção da mesma.

Gostava que Ana Leal, a repórter que fez a peça sobre os gastos da presidente do Raríssimas com dinheiros de donativos e subsídios públicos, vasculhasse também porque é que a Segurança Social ignorou as denuncias. Quem ignorou e porquê? Faz parte da teia? É normal a Segurança Social ignorar denuncias?

A 12 de Outubro o ex-tesoureiro envia a denuncia para o Ministro Vieira da Silva. A SIC aqui exagera ao dizer que o Ministro já sabia. Não me parece que o Sr. Ministro se ponha pessoalmente a abrir correspondência. Merece, no entanto, a pena questionar se o Ministério respondeu de alguma forma ao ex-tesoureiro e se iniciou averiguações sobre o caso ou, como na Segurança Social, ignorou a denuncia.

 

Há muito tempo que encontramos peças jornalísticas com este tipo de gente que vive de subsidiação estatal, mas que não fazem parte dos subsídio-dependentes tradicionalmente acusados. Vimos as histórias dos colégios privados, subsidiações para associações, para senescentes, IPSS’s para crianças, para deficientes e doenças diversas… uma quantidade de histórias noticiadas, e aquelas que não são noticiadas, mas que conhecemos pela nossa rede de conhecimentos, de mais ou menos pequenos feudos que se alimentam do nosso sangue.

E o carrossel deu a volta para eu voltar a dizer que não há fiscalização.

É preciso uma denuncia de dentro, é preciso um jornalista, neste caso Ana Leal, para que estas histórias sejam conhecidas por todos e para que as autoridades sejam forçadas a prestar declarações, a tomar medidas.

Não me recordo de ler o que resultou da investigação no Hospital Pediátrico de Coimbra.

Esta malta abusa da boa vontade e da generosidade dos cidadãos. Lamentavelmente, mesmo que a senhora seja constituída arguida e seja condenada, quem perdeu, perde e perderá, será quem mais precisa. Lamentavelmente, esta não é a exceção que confirma a regra…

3 comentários

Comentar post