Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Que dure; que seja perpétuo… Que logo se veja.

tejo_.JPG

A certeza é hoje efémera. Mas o futuro é mais que certo. O amanhã chegará, forçoso, já ao virar do dia. Quer estejamos cá, quer não. E na velha telefonia, o som estridente da música ligeira teima em persistir. Na resiliência de se fazer ouvir; na insistência de ser intemporal. Na casmurrice da sua intolerância cultural.

 

As paredes caiadas, aos poucos cobrem-se de negro. É inevitável junto àquele braço de rio… Ou será perna? Pouco importa a anatomia fluvial. Tão certo como o tempo que passa é o facto daquela água ali não voltar. Mais triste seria se fosse aprisionada no espaço e no tempo. Encarcerada na terra madrasta. Porque não se volta ao lugar onde se foi infeliz. Onde se passou, simplesmente, para deixar aluvião. Trabalho árduo, que molda o território e forma riqueza. Mas será essa a riqueza necessária?

 

No faustoso depósito de sedimentos cresce o lamaçal do desenvolvimento. Sem o vapor de outrora e sem a alternativa devida. É tudo maior, melhor, mais higiénico e mais longe. Atolada fica a pessoa: singular ou colectiva. Enquanto isso, o interesse estabelecido paira agilmente sobre esse obstáculo. Certo que um novo voo trará a prosperidade ansiada pelos seus parasitas. Mas o que é estudado, projectado, calculado, prometido, devido, errado e esquecido teima em não chegar. Respiramos por momentos, aliviados da asfixia mediática que nada esclarece, mas muito adormece. E mesmo que chegue: trará a riqueza necessária? Algo que dure; que seja perpétuo?

 

O tijolo está parado e não constrói comunidade. Ele até é edificado, mas falta o cimento que o fixa. E o que ainda prevalece de pé arruína-se. A chaminé abate e o património esbate-se. Ausente da memória dos que não são de cá e esperam clarividência. A velha coloca a cadeira de metal na eira à espera da chuva no nabal que não chega. É corroída pelo sal e atacada pelo sol. A velhota? Não, a cadeira. Na realidade, ambas. A velha há muito que sente a ferrugem. De dia para dia inclina-se como a chaminé; vai perdendo a construção da sua vida. Sabe que não durará, nem será perpétua. Mas quer deixar legado; transmitir importância. Contribuir para a riqueza necessária.

 

No fogareiro assam as bifanas. O seu perfume já ensopa o ar. Estão quase no ponto de se aconchegarem no pão. Chegam no momento certo para embelezar o Carnaval quinhentista dos santos populares. Ou provavelmente não passam do final de ano. As ruas enchem-se de curiosos que colocam os olhos no céu, olvidando as ruelas. Ansiosos de ver no fogo-de-artifício o futuro terreno que os astros escondem. Mas o fumo esfuma-se. Não dura, nem se torna perpétuo. Certo que cria riqueza. Mas será esta a riqueza necessária?

 

Do alto do seu chão, a prepotência eleva-se. Ao nível de todos os outros, mas com a soberba que a ilude. Vangloria-se, pois mais ninguém o faz. Mesmo os seus já duvidam. Vocifera a planície de ideias que não é, nem nunca foi, planalto. Promove-se e rouba o palco que devia ser comunitário. De instantâneo em instantâneo, até ao instante final. Certa que se chega e se esgota a si mesma. E tem razão, esgota-se a sim mesma! Tal como os demais se sentem esgotados… Da ausência de algo que dure, que seja perpétuo. E do permanente e irritante: que logo se veja.

 

Montijo, 30 de Dezembro de 2016