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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

“Prefiro jogar”

Temos sempre a ideia de que os nossos filhos não ouvem o que lhes dizemos. Essa foi sempre a minha convicção, quando martelava o meu descendente com as noções básicas da urbanidade e sã convivência. De como devemos saber estar e como devemos agir. Como ele é praticante de desporto, e como também eu o fui enquanto jovem, tentei incutir nele a ética desportiva e o respeito pelo adversário. Uma mentalidade de salutar competitividade desportiva. Além de saber perder, e encarar esse facto com naturalidade e espírito crítico pela sua actuação, é essencial saber ganhar. E ter a percepção que a vitória não pode nem deve ser obtida a qualquer custo.

 

Parecia não estar a resultar. Teimoso e refilão. Obstinado na procura da bola. Vai aos arames cada vez que alguém lhe agarra a camisola ou em cada lance que se sente travado no limite da legalidade. Verdade seja dita, que não me lembro de o ver puxar a camisola de nenhum adversário. Mas já o vi ser expulso algumas vezes… Sempre em resposta a agressões, à excepção de uma vez que não parou de refilar com o árbitro, depois deste o ter amarelado por uma suposta falta que ele não cometera. No meu entender isto não revela um comportamento anti-desportivo. Antes alguém que tem dificuldade em lidar com injustiça e se recusa a assistir impávido e sereno. Isso só faz dele um bom carácter, nada mais…

 

O último jogo da sua equipa saldou-se por uma vitória pela margem mínima. Os momentos finais do jogo foram de verdadeiro sufoco. Defendendo de todas as formas possíveis e imaginárias, lá levaram a água ao seu moinho. No rescaldo da partida o treinador dissertava sobre a forma como perante um resultado tímido é necessário lançar mão de subterfúgios para “queimar tempo”, fazendo com que os ponteiros do relógio enervem o adversário e lhe retirem o discernimento necessário. Às páginas tantas lança a pergunta retórica, que é já um chavão futebolístico: “vocês preferem perder ou ganhar?” Silêncio sepulcral no balneário. Meu filho, astuto, do alto dos seus 15 anos de idade, dispara a resposta que não era pedida nem desejada: “prefiro jogar!” Atónito, e sem saber muito bem o que dizer, o treinador reagiu: “então, depois perguntas ao teu pai.” Era desnecessário. E o meu filho bem o sabia.

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É sempre um orgulho enorme para mim, quando sou surpreendido desta forma pelo meu filho. Provou não só que ouve o que lhe dizem em casa, como também que põe em prática e se revê em tais ensinamentos. É alguém que não embarca em chico-espertices, nem atalha caminho. “Mas olha que o mundo é dos espertos” – sinto o leitor a alertar. Pois os espertos que fiquem com essa visão do mundo. Eu prefiro lutar para construir um mundo melhor. E levo o meu filho comigo!

 

Montijo, 11 de Janeiro de 2017