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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Praxiência

Ele há coisas que me custam entender. Uma delas é o fenómeno das praxes académicas. Até que ponto a humilhação do próximo pode ser considerada como parte de um processo de integração? Que valorosas lições podem ser aproveitadas para o futuro? Que papel desempenham as praxes no percurso académico?

Invariavelmente, as respostas a estas questões são um chorrilho de chavões, que deixam qualquer pessoa minimamente atenta insatisfeita com as mesmas. A cartada da tradição vem sempre à baila. Mesmo admitindo que existem décadas ou séculos de história nesta prática, não podemos, de ânimo leve, aceitar tudo o que venha rotulado como tal. Existiam muitas tradições, entretanto extintas ou repudiadas pela sociedade moderna.

É falsa a ideia que se transmite de que a maioria dos alunos adere a este "circo". Lembro-me bem que, na altura em que era estudante, dos 200 ou 300 alunos que entraram no mesmo curso nesse ano, somente 20 ou 30 alinharam nessa brincadeira. Eu fui um dos que decidiram ficar de fora. Foram-me veladas ameaças de marginalização pelo meu percurso académico fora. Curiosamente dei-me muito bem com a grande maioria dos meus colegas de curso. E se bem me recordo apenas duas ou três pessoas se trajaram a preto e branco no ano seguinte, para poderem pintar a cores.

É-me impossível compreender como é que alguém gritando ser burro ou soltando impropérios na via pública pode ficar mais preparado para o futuro. Como é que entoar canções brejeiras pode facilitar a defesa duma dissertação. Como poderá a simulação pública do acto sexual ajudar os alunos na preparação para os exames. E em que medida as caras pintadas, os cabelos sujos e as roupas rasgadas amenizam a vivência dos próximos anos e suavizam a adaptação à universidade...

O aproveitamento da insegurança, inexperiência e medo de um semelhante para divertimento próprio é repugnante e doentio. Apenas reproduz um modelo social preverso e perpetua um círculo que muitos de nós tentam quebrar. Temos de um lado os "veteranos", que impõem a sua vontade, como se representassem a elite nacional, os nossos privilegiados. Do outro os "caloiros", que representam o povo, a quem é incutido o espírito subserviente e ensinada a doutrina seguidista, sempre com uma promessa no horizonte. A cenoura que perseguem é a possibilidade de um dia também eles poderem humilhar o próximo. E assim a pescada morde o próprio rabo.

As praxes académicas são um fenómeno violento, física e/ou psicologicamente. Parecem-me ser cada vez mais usuais as ocasiões em que resvalam, ultrapassando todas as barreiras. São atentatórias da dignidade humana. Os praxados são, num primeiro momento, suas vítimas e, posteriormente, seus carrascos. O sistema é auto-suficiente. Estou convencido que a maioria dos caloiros, sejam voluntários, voluntários à força ou encarneirados, não se apercebe disso e entra num jogo que faz da humilhação do semelhante uma condição para a integração. Algo do género "brincar às ditadurazinhas".

Para estas estúpidas tradições, que só fazem a sociedade estagnar, o progresso marcar passo e replicam modelos que não queremos para o futuro, já não há  praxiência... Que a nossa juventude quebre o marasmo e não condescenda sua dignidade. Que o amanhã traga jovens mais livres de expressar sua opinião e sentimentos, repudiando serem tratados como lixo. Porque a Universidade é mesmo o espaço por excelência para exercitar a liberdade de pensamento. E que se encontre na igualdade e na fraternidade, condições essenciais numa sociedade democrática moderna, o campo específico para a integração dos novos estudantes na vida académica.

 

Montijo, 17 de Setembro de 2015

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