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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Portugal Verga-se Como a Grécia!

 

 

Durante muito tempo, demasiado tempo, o nosso mundo foi muitas vezes subjugado ao poder – não militar – mas ao poder de influência do Vaticano, da religião.
Os tempos mudaram e hoje o Vaticano continua a ter o seu poder e a sua influência mas está hoje longe do protagonismo de outros tempos.
Neste nosso mundo ocidental, o Vaticano já não influencia o poder governativo de cada país. Isto não quer dizer que os países se tenham tornado independentes de um poder não-militar.
Hoje os mandamentos são outros, são os mandamentos escritos por um deus maior, menos claro mas igualmente objectivo, o deus do capitalismo.
Devo desde já dizer que não gosto de usar este termo porque é imediatamente associado a uma bipolarização entre capitalismo versus comunismo, mas para agora, e para que fique mais claro, usarei o termo.
Este deus está por toda a parte e alberga em si muito mais do que as religiões tradicionais. Hoje vemos os países que faziam parte do bloco de leste vergados às leis de mercado.
Não é de estranhar que, tal como as religiões tradicionais, quando alguém tenta modificar os dogmas ou mesmo criar algo de novo, é atacado até que se desistam dessas ideias diabólicas.
Isso tornou-se evidente no início de 2015 quando na Grécia o Syriza venceu as eleições e Varoufakis demonstrou ser possível governar o país, rumo a uma recuperação, sem ter de seguir os ditames da Comissão Europeia. Só pararam quando o Governo grego capitulou e aceitou manter nas suas fronteiras os dogmas dominantes e obviamente exilar Varoufakis para bem longe do poder.
Durante um ano pregou-se a recuperação, a estabilidade, a retoma. De um lado, os velhos do Restelo a anunciar que a grande crise ainda estaria para chegar, do outro, os que diziam que o pior já passou desde que a hierarquia desta religião continue no poder, e ao centro, o BCE a dizer que tudo fará para manter a fornalha acesa.
Mas Portugal votou à esquerda. Podemos aqui esmiuçar a falta de coragem do PCP, PEV e Be em integrarem o Governo, mas não será aqui, neste momento, que irei esmiuçar o tema. Facto é que temos um Governo de esquerdo apoiado por outros partidos mais à esquerda e isso faz toda a diferença.
Para nós, portugueses que votámos e elegemos naquele sentido, são uma vitória face a um anterior Governo austero constituídos por meninos de sacristia. Para os cardiais e bispos desta religião, a partir do momento que tentam mudar o registo, tornam-se primeiro uma afronta, depois um perigo.
Não é particularmente importante o que António Costa possa argumentar perante a Comissão Europeia. Eles irão SEMPRE alegar que é preciso mais um esforço porque assim não é suficiente. Dez pais-nossos não são suficientes. É preciso acompanhar com uma dúzia de aves-Marias e mesmo que estas já lá estivessem contempladas, era preciso acender uma velinha em Fátima.
Para a religião instituída seria um perigo aceitar um programa de Governo de esquerda sem o arrasar completamente, até porque em Espanha as eleições ditaram também um Governo de esquerda e há o perigo de uma esquerda sistémica que possa resolver os problemas de outro modo e acabe por destruir a religião instituída, mesmo que isso acabe com a União Europeia tal como a conhecemos.
Esta religião, tal como outras que no passado eram o epicentro do poder, usa toda a sua influência para se manter no poder. Não é um acaso o argumento que “Portugal está melhor, os portugueses é que não…”. Esta religião prefere salvar bancos e os seus euros do que salvar e salvaguardar pessoas. As pessoas não são o fim mas o meio para aumentar os lucros de um deus sem contornos definidos.
Para países como Portugal é fácil vergar seja quem for que esteja no Governo. Desaprovam-se as medidas, ameaçam-se cortes de financiamentos e facilidades na relação com o BCE, cortam-se os ratings e os juros sobem. Em meia dúzia de palavras, sem grandes problemas se anuncia uma crise.
A solução não será fácil. Provavelmente terão de ser criadas alianças nos países periféricos. Talvez até criar um grupo económico mediterrânico. Talvez Portugal tenha de abdicar da dependência da Europa e tome a iniciativa de se fazer de novo ao mar e ser uma vez mais o pivô e a ponte entre muitos países por esse mundo fora.

Portugal não tem de estar condenado à periferia. Pode ser o centro do mundo e para isso, basta querer.