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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Pornografia Financeira

 

Em Abril de 1998 sou aprovado no Código de Condução. Quinze dias depois entro para a recruta, à data chamava-se Serviço Efectivo Normal, e no primeiro fim-de-semana em casa pego no meu primeiro “charuto”. Um Renault 5 de 1984 com vidros eléctricos, direcção assistida, muita ferrugem, forro do tecto descolado, fuga na junta do cárter, um fio que se soltava insistentemente do motor de arranque, panela rota e uma peça que segurava um veio das mudanças e que se soltava com frequência. Enfim, uma máquina!
A isto se adicionava o facto de gastar 12 litros aos 100 km e na recruta o “ordenado” rondava os 7.500$00. Por isso mesmo recordo-me que naquela altura o litro da gasolina custava 163$00 (0,81€) e “mil paus” davam para uma semana nas voltinhas.
Ao fim de um ano, já fora da tropa, com muita pena minha, abdiquei desta gloriosa máquina por uma que não tivesse nenhum dos predicados acima referidos.
A energia, seja ela de que natureza for, é um serviço público estratégico. Um país vive e desenvolve-se tão melhor quanto mais energia for disponibilizada.
Se fizermos um paralelo com a zoologia, sabemos que quanto mais energia disponível mais activo será um animal e maior probabilidade de sucesso terá. Um animal que tenha pouco alimento disponível ou que esse alimento seja pouco rico, passará muito tempo parado de modo a consumir menos energia ou passará a maior parte do dia em busca do alimento suficiente.
Com um país acontece o mesmo. Se os recursos energéticos forem poucos o país fica estrangulado passando a uma existência de sobrevivência.
O que acontece quando um bem estratégico passa a ser controlado por um mercado cartelado como o existente em Portugal, é como ter um bando de sanguessugas agarradas ao corpo a sugar o sangue do organismo.
A tão famosa competitividade é uma relação entre os custos de produção e o consequente preço de venda de determinado produto. Se os ordenados, face a outros países da Europa são diminutos, se é sabido que os portugueses trabalham mais dias e mais horas por dia que a média europeia, o problema também passará pelo preço da energia.
Entre 1998 e 2016 tudo mudou comigo, com Portugal e com o mundo.
A Galp foi privatizada tendo como argumento que um mercado privado e liberalizado beneficiaria o consumidor final. Em 2010 o Estado vende a sua última quota de 7% de Golden Share da Galp fazendo assim a vontade ao poder económico e ao poder que controla a União Europeia. Nesta altura já o mercado tinha sido liberalizado há 6 anos, em Janeiro de 2004.
Na próxima segunda-feira o preço dos combustíveis voltará a subir apesar do preço do crude e do brent continuar a cair e já regressou ao valor de referência de 2004, a 35 euros o barril de brent.
A liberalização do mercado de combustíveis não resultou para os portugueses, como é costume, e ainda que graficamente o preço do Brent acompanhe o gráfico do preço médio de venda ao consumidor final, facto é que Portugal sempre teve os preços mais elevados a EU e apesar de agora ter uma refinaria em Sines com uma grande capacidade, o custo elevado mantem-se. E se o preço do Brent em 2004 era de 35 euros por barril para o preço de vende de 1,03€/litro de gasolina S/Chumbo 95, hoje o preço do barril de brent volta aos 35 euros mas a gasolina custa agora 1,35 sem que nada o justifique.
A Galp serve aqui apenas como referencia porque a esta teríamos de adicionar todas as outras empresas revendedoras. Estas até podem justificar os aumentos com a subida da carga fiscal mas isso não passa de desculpas para manter e se possível ampliar os lucros aos accionistas.
Em 2004 a Galp apresentou 331 ME de lucros líquidos e o ano mais fraco foi 2008 onde apresentou um lucro líquido de 116,9 ME de lucro liquido. Nunca foram apresentados prejuízos.
Em 6 anos, apresentaram praticamente 3 mil ME de lucro, mesmo quando o país atravessa uma crise.
O recurso estratégico não deve nem pode ser a sanguessuga do sistema e ainda que possa aumentar a margem de lucro em períodos de bonança, terá sem dúvida que ser o primeiro interveniente a anular lucros em tempo de crise de modo a garantir um regresso rápido à saúde financeira do país.
Este é um apanhado pela rama dos serviços públicos estratégicos, no entanto, e apenas em três empresas que já foram nacionais, entre 2004 e 2009 EDP, GALP e PT apresentaram mais de 13 mil milhões de euros de lucros líquidos.
Estes lucros pornográficos têm de parar a bem de Portugal e dos portugueses. Recursos estratégicos não podem gerar lucros desta dimensão quando depois condenam toda a sociedade a um desenvolvimento precário.