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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Por um mundo onde se possa respirar

 

As questões da mobilidade e sobretudo a transição dos motores de combustão para motores elétricos são temas que me são caros.

A mobilidade é uma questão que não se pode observar apenas de uma perfectiva uma vez que é uma questão holística com influencias sociais, económicas e ambientais.

Antes de mais temos de fazer um périplo pela história e verificar que há mais de 2300 anos os romanos adquiriram vantagens estratégicas no campo militar e comercial a partir do momento que estenderam estradas pelo seu império, muito maior que qualquer país europeu atual. Este império durou muito mais tempo do que qualquer país dos nossos tempos e provavelmente não duraria tanto sem essas estradas.

A mobilidade não é um luxo e ainda hoje referimos a roda como a maior invenção da história entregue a autor desconhecido.

Para a maioria de nós a mobilidade não é um luxo, antes uma necessidade onde se troca o esforço financeiro por alguma qualidade de vida.

Há 60 anos boa parte das mulheres eram donas de casa e os filhos ficavam a cargo da mãe.

Há 30 anos as mães, na sua maioria já trabalhavam, e os filhos ficavam com as avós, as tais mães que na geração anterior tinha ficado em casa com os filhos.

Hoje mães e avós trabalham e os filhos ficam o dia todo entregue a instituições com horário pouco diferente do horário do horário dos pais.

Para uma demonstração clara do que digo, a Área Metropolitana de Lisboa conta com quase 3 milhões de habitantes. O município de Lisboa tem pouco mais de meio milhão de habitantes. Todos os dias precipitam-se milhares de pessoas para o município de Lisboa para trabalhar tendo antes deixado os filhos nas escolas, tendo de os recolher ligo depois de saírem do trabalho. Para esta maioria os transportes públicos não respondem a esta necessidade. O meu exemplo será igual ao de muitos, a escola abre às 9:00 e acaba às 17:30. Se eu tiver um horário das 9:00 às 18:00 verifica-se ser impossível estar em dois locais ao mesmo tempo. Para alargar esse horário tenho de pagar um ATL que me alarga os tempos entre as 8 horas e as 19 horas. Mesmo pagando, sobra-me uma hora entre o momento que parto do ATL até chegar ao emprego e outra hora no percurso inverso. Obviamente que posso considerar morar mais perto de Lisboa e usufruir da rede de transportes públicos, mas tenho que contar com um aumento significativo no valor da habitação e ainda assim não consigo abdicar do ATL, afinal a escola acaba antes do meu horário de saída.

Refiro-me a 1/3 da população nacional e não a uma pequena amostra da população. Para dar já aqui um lamiré económico, o transito diário em pára-arranca, aumenta em cerca de 40% o consumo de combustível.

Vamos aqui dar o lamiré ambiental: Portugal consome cerca de 300 mil barris de Brent diariamente, importamos de 26 mil tonelada equivalente de petróleo em 2015 e voltando à economia temos de considerar que os produtos petrolíferos são dos que mais desequilibram a balança comercial.

Escuso-me aqui a explorar os mais que sabidos impactos ambientais produzidos por combustíveis fosseis.

Voltando às questões da mobilidade, temos de considerar que existe um grave problema de organização do território e essa reordenação será muito mais demorada que a troca de uma viatura de combustão interna por um elétrico.

A reordenação do território implica que os empregos se descentralizem permitindo que as pessoas vivam perto dos seus empregos e que a necessidade de deslocação, seja ela de que forma for, diminua significativamente. Se isso não for feito e se insistirmos nos mesmos argumentos, na melhor das hipóteses teremos diversas vias de transportes públicos, mas as pessoas continuaram o purgatório a caminho das grandes cidades. Num país em que as comunicações são rápidas e que de Elvas a Lisboa se demoram 2 horas, não há nenhuma necessidade em manter as empresas todas no centro de Lisboa e do Porto.

Se eu defendo a transição para viaturas elétricas? Claro que sim.

As pessoas dificilmente perderão a sua independência de mobilidade mesmo que se desloquem a pé, de bicicleta ou transporte publico para o emprego.

 

Respondendo ao meu caro José Azevedo, tudo pode ser enquadrado no neoliberalismo. Indo para o básico podemos considerar os pesados custos das ciclovias e podemos considerar que ideias destas fazem parte do lobby verde que obriga as pessoas a comprar mais ténis porque andam mais a pé. Ou das empresas de bicicletas que com toda a certeza venderão muito mais bicicletas e acessórios.

Concordo que as cidades foram feitas tendo em vista o lucro, aproveitando créditos baixos e o desejo de ter casa própria descurando as condições de habitabilidade.  A remodelação das cidades, periferias e descentralização é coisa para demorar décadas. A melhoria dos transportes públicos não vai resolver o problema social associado e por muito bons que sejam continuarão a não resolver o problema das famílias com filhos menores.

O que nós podemos fazer agora é usar as fontes de energia mais abundante que dispomos e que tem uma pegada ecológica muito inferior e que para alem disso beneficia a balança comercial. Vou mais longe, neste salto tecnológico o Estado devia apoiar empresas nacionais de automóveis elétricos e criar uma industria exportadora de maior valia como têm feito países como a Alemanha.

Se tudo representa dinheiro e lucros, certamente que consigo trás gente de menores escrúpulos, mas cabo ao Governo, aos Governos, regularem tendo por base o maior interesse da população numa estratégia de médio/longo prazo.

Apoiarei sempre mobilidade sustentada numa produção de energia limpa.