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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Política emotiva

É comum afirmar que a política é o campo da racionalidade. Que os sentimentos toldam o pensamento lógico e como tal devem ser colocados de parte. Pessoamente, não faz qualquer sentido falar em política vazia de emoções. Até porque foi o sentimento de inquietação constante que me fez olhar para a política de outra forma. Foi o olhar em redor e perceber a desigualdade. Foi o olhar para dentro e perceber o meu silêncio cúmplice.

 

Com efeito, muitos de nós sentimo-nos empertigados com o que assistimos quotidianamente e com a inércia da classe política. Na sociedade portuguesa aumenta o fosso entre os mais ricos e mais pobres. É cada vez mais difícil às classes mais desfavorecidas o acesso à saúde, educação, justiça. O desemprego dizem que é estrutural, mas a precariedade também já o é. E continua a grande maioria da população a malhar muito nos políticos, mas sem nunca participar activamente no processo.

 

Quando se pergunta às pessoas em que tipo de regime preferiria viver, a larga maioria não hesita em nomear a democracia representativa. Bem ou mal, somos nós que escolhemos aqueles que queremos que constituam o parlamento, onde se digladiam as ideias e se votam as leis. De onde brotam os governos que imprimem uma estratégia e um modelo de desenvolvimento ao país. Aliarmo-nos disto é desistirmos do país hoje e para o futuro.

 

Se julgamos que as coisas estão mal e que é preciso fazer alguma coisa, não basta fazer cliques com o rato ou partilhar posts de indignação nas redes sociais. É preciso uma cidadania activa, que exija mais a quem nos governa local ou centralmente. Tal pode ser feito através de movimentos de cidadãos, associações, sindicatos ou partidos. Que não tenham pudor de meter as mãos na massa e enverdar pelo caminho político. Se julgam que no espectro actual não se sentem representados, que se unam com outros em circunstâncias idênticas e com quem partilhem ideias. Que formem novos partidos. Porque a sociedade é mutável e se os partidos não acompanham essa mudança, não agem ou reagem à mesma, não estão a prestar um bom serviço aos cidadãos.

 

Qualquer que seja a participação política escolhida, que dela não se expurgue o sentimento. É essencial perceber as emoções de quem nos rege. Para ficar bem claro que quem diz coisas como “que se lixem as eleições” está na realidade a querer dizer “que se lixem as eleições… desde que eu continue no poder”. E se não conseguirmos discernir para além da máscara da racionalidade, se não conseguirmos chegar ao nível emocional, nunca saberemos se essa pessoa está ou não a ser sincera.

 

Moral da história: nunca confie num político que esconde as suas emoções.

 

Montijo, 23 de Novembro de 2015