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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Perigosa Ignorância

É possível aplicar corrector sobre a história? Pegar num pincel de líquido branco e besuntar o calendário para fazer desaparecer o dia de ontem? Estou certo que a maioria de nós daria tudo para que tal fosse exequível… Continuaríamos o nosso curso alegremente, sem nos sobressaltar. Vibrando com os golos da selecção francesa e ouvindo Eagles Of Death Metal.

 

Ontem Paris foi palco de um terrível atentado. As explosões misturaram-se ao coro da claque e as rajadas de kalashnikov aos acordes da guitarra eléctrica. Ontem tivemos um vislumbre do terror que vem perpetuando o autodenominado Estado Islâmico. Este bando de fanáticos religiosos, com uma visão muito singular do islão, atacou o coração da terra da liberdade, igualdade e fraternidade. E abalou o nosso quotidiano.

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Ontem Paris sentiu aquilo de que centenas de milhares de refugiados que fogem da Síria sentem há 4 anos. Agora multipliquem por 30 o grau de barbárie e carnificina, o equivalente a 1 mês. Depois multipliquem pelos 365 dias do ano. E finalmente multipliquem pelos 4 anos de guerra. Mesmo assim, ficaremos aquém do número de vidas humanas perdidas desde o início do conflito na Síria – http://www.jn.pt/PaginaInicial/Mundo/Interior.aspx?content_id=4718754 – que ascende já a 240.000, ou seja, 60.000 por ano, 5.000 por mês, 166 por dia…

 

Ontem Paris, numa única noite teve a noção do que é apenas um dia banal na Síria. E o que é que decidimos fazer? Saltar para as redes sociais e em coro vociferar contra os refugiados. Na ponta dos dedos uma indignação cega e injustificada. Responsabilizando-os pela acção que 8 fanáticos jihadista perpetraram. Incendiar de ódio o que tinha ficado por arder. A alma das famílias e amigos daqueles que perderam a vida, a consciência dos franceses, o sentimento dos europeus.

 

Ontem Paris percebeu precisamente de que terror os refugiados fogem; do que eles mais temem. E é isto que enfrentam todos os dias na Síria. A penosa incerteza de não saber se seus filhos sobreviverão mais um dia ou se serão mais uma das mais de 8 crianças mortas diariamente. Por isso se lançam ao mar de incertezas e arriscam as suas vidas e as dos seus. Culpá-los por actos de um grupo fanático é ridículo, é infundado, é ignorante. É arranjar um bode expiatório para aquilo que não conseguimos controlar nem explicar.

 

Simultaneamente, com este tipo de atitude lançamos uma acendalha para dentro de um barril de pólvora. A situação só por si já é caótica. Os refugiados são atirados de fronteira em fronteira, como se de uma praga se tratasse. Lançar este tipo de atoardas só causará o escalar da violência. E desta vez tudo se passará no nosso pátio, o velho continente.

 

Em momentos como este convém sempre lembrar que também Portugal é terra de emigrantes e que já fomos fonte de refugiados. Lembrar também os princípios da república francesa: liberdade, igualdade, fraternidade. Que todas as democracias modernas abraçam. Nunca tomar a floresta pela árvore. E acima de tudo ter sempre presente que a ignorância, às vezes, pode ser tão perigosa como o fanatismo…

 

Montijo, 14 de Novembro de 2015