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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Pequenas comunidades

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A bucólica calma alentejana é sobressaltada pelo latir de um cão. São nove da manhã e os raios de sol já aquecem os ossos. Se o Alentejo é planície, Montemor-o-Novo é excepção. Sobe e desce em torno de seu castelo. É a terra da papoila. Tal deveria significar liberdade. E significa. Sente-se no pulsar de suas gentes. Pessoas simples, acolhedoras, sinceras. Mas também resolvidas e verticais.

 

Nas ruas é dia de correria. A prova podia ser feita descalça pelos participantes, de tão limpos que estão os caminhos. Os sorrisos sublinham os cumprimentos da praxe. Em cada rosto igualdade. Igualdade e paz. Muita paz. Emoldurada pelo casario branco do cal e debruado a amarelo ou azul. Montemor-o-Novo é cidade e é também concelho. É porta de entrada no Alentejo profundo e no distrito de Évora. E isso traz consigo uma pesada herança.

 

Alentejo é esquecimento. Não vem de agora. Tem raízes profundas, históricas. Entre um rio outrora difícil de transpor e um povo de resistência e luta, que a bota cardada pisou e que nunca amansou. De celeiro de Portugal, a deserto de pessoas. Quem fica resiste e muitos regressam às origens. Essa deve ser a nossa lição de resiliência.

 

Honra seja feita aos comunistas. Podem criticá-los de muita coisa, mas nunca acusá-los de esquecer este povo. Os poucos que ficam vêem diminuída a sua importância. Os 3 círculos alentejanos (Beja, Évora e Portalegre) são responsáveis por somente 8 deputados dos 230 que comporta a Assembleia da República. Talvez por isso, em plena campanha legislativa, são terras esquecidas das máquinas de propaganda dos principais partidos. As caravanas rumam a outras paragens, com mais gentes, com mais votos. Montemor-o-Novo encontra-se polvilhada de propaganda CDU, nada mais. Os restantes excluem-se, uns, mais pequenos ou recentes, por dificuldades de mobilização ou incapacidade logística, outros, de maior dimensão, apenas por opção e estratégia política.

 

Enquanto se desdenhar as pequenas comunidades vamos sempre ter ilhas, mesmo dentro do continente. Apesar do bom trabalho da Câmara CDU, a renúncia do trabalho político nestas terras implica sonegar a estas comunidades a liberdade de escolha, a pluralidade democrática. Que todos os movimentos políticos reequacionem o seu modelo, que multipliquem a sua actividade, que promovam o esclarecimento das pequenas comunidades como Montemor-o-Novo e outras similares. Que a liberdade seja uma realidade para todos os cidadãos e para que não haja comunidades discriminadas pelo seu número de eleitores.

 

Montemor-o-Novo, 27 de Setembro de 2015