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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

O sonho do precário é ser colaborador.

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A vida do colaborador dos nossos dias foi descrita há uns dias por Miguel Dias aqui neste espaço.

Mas o colaborador é um privilegiado nos nossos dias porque durante o seu percurso teve a oportunidade de sonhar e ter esperança por dias melhores, por uma carreira como as de antigamente em que se ficava na empresa e se ia progredindo até à reforma.

Existem outros que não chegam a esse luxo: os precários e os colaboradores-precários.

Recordo-me de José Sócrates no Governo, ainda longe desta fase de pantomimeiro, dizer para quem quis ouvir que os trabalhadores deveriam tornar-se polivalentes a bem da produtividade. A verdade é que esta ideia resulta em duas coisas e nenhum se relaciona com produtividade ainda que possa rimar. Uma é a precariedade do tipo que me bom português é pau-para-toda-a-obra, a outra é que o tipo por mais formação que tenha é tomado por mão-de-obra não especializada e recebendo como tal.

Sabemos que 30% da massa laboral tem um vencimento abaixo de 600€ mensais. Adicionamos os 10% declarados como inscritos no desemprego, adicionamos ainda reformados e pensionistas que recebem abaixo de 600€ e os jovens que ainda não fazem parte da força de trabalho e começam desde cedo a ser precários. Exagero se disser que mais de metade da população do país vive mal?

O colaborador-precário entra com um contrato a termo incerto para que ele perceba que a sua vida é como o seu contrato, uma incerteza. Quem o contratou recorda-lhe com frequência que tem sempre hipótese de incorporar a maior empresa do país, o IEFP. O colaborador-precário quer queira quer não é pau para toda a obra sem hipótese de contestar e quantas mais valências disser que tem, maior será o numero de tarefas que lhe são atribuídas.

Tal como o colaborador, o esforço é contraproducente.

O sonho do colaborador-precário é ser colaborador.

Existe ainda um degrau para descer. O tipo do outsourcing.

Quem trabalha ou já trabalhou com eles, ou é um deles, sabe do que falo.

Se há alguma coisa em que seja preciso encontrar culpados e se estes existem na empresa, o culpado será um destes.

Uma vez desapareceu um envelope com 30 contos onde trabalhava. Existiam 3 pessoas envolvidas e duas eram de uma empresa de outsourcing. A culpa foi para os que eram externos.

Isto acontece porque é fácil trocar. São descartáveis como preservativos. Deles espera-se a melhor qualidade ao menor preço.

E mesmo entre funcionários, se aparecer um trabalho mais chato, ele é atribuído ao tipo do outsourcing só porque sim, porque se pode fazer isso e o chefe só quer saber se o trabalho é feito, não importa por quem.

O tipo do outsourcing é frequentemente lembrado da sua posição ao mesmo tempo que lhe é dada a ideia que um destes dias, se for um bom escravo, poderá subir a colaborador-precário.

Pior?

O tipo a recibos verdes, o prestador de serviços, o precário.

Este tipo trabalha à tarefa e trata do lixo laboral. O que ninguém quer fazer é para o precário porque ele quer ganhar dinheiro e por isso faz tudo. Nos últimos tempos estes sujeitos foram coagidos a abdicar do recibo verde e a formar empresas unipessoais ou a agrupar-se em pequenas empresas. Muitos deles ao fim de um ano abrem falência. É-lhes oferecido um rendimento superior, mas ninguém lhes explica que esse valor absorve também as responsabilidades e quando chega a altura de acertar as contas com o fisco esta malta percebe que afinal foi enganada e aquele valor não era uma melhoria, mas sim uma armadilha.

O dono da empresa conseguiu um ano com menos custos e menos responsabilidades. Resta, entretanto, encontrar mais um desesperado para enganar.

A maioria destes salta de empresa em empresa encontrado condições semelhantes, adiando sonhos de vida ate que a determinada altura acostumam-se à ideia que a vida será um eterno purgatório.

Ao menos o colaborador do Miguel teve a oportunidade de sonhar…