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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

O sonho de uma noite de alcatrão

 

 

A fresadora de pavimentos desperta-me. De um salto me levanto, tentando descobrir de onde vem o ruído. Quando chego à sala-de-estar percebo que está ali a sua origem. Mas que raio?!

 

Aproximo-me do senhor de capacete na cabeça, que faz questão de colocar a gravata por cima do colete refletor. Telemóvel numa mão e rádio na outra agita os braços freneticamente, dando indicações que os restantes trabalhadores fingem perceber e cumprir. Meio estremunhado pergunto-lhe qual a razão para semelhante estaleiro montado na minha habitação. Antes de me responder pede-me para o tratar por engenheiro e não por senhor (“senhor é o meu pai”, diz ele galhofeiro). Com a condescendência que normalmente se destina aos menos capacitados recordou-me que estávamos em 2017. Eu continuava sem perceber. O engenheiro, entediado, remata que é ano de alcatroar o concelho.

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De forma infrutífera tentava explicar que não carecia tal incómodo e que estava muito contente com o actual pavimento da minha habitação. O engenheiro só abanava a cabeça enquanto se fingia ocupado. Os trabalhadores numa azáfama constante preparavam o terreno para o tapete de asfalto já pronto a ser estendido. Roguei ao engenheiro que parasse com os trabalhos. “Nem pensar!” – Responde – “Então depois do transtorno que deu trazer toda a maquinaria e material até ao sexto piso, agora queria que cessasse a obra?!”

 

Uma série de flashes cega-me momentaneamente. Por trás destes surge o presidente da câmara, com seu sorriso de crocodilo. Sovaca-me, passando o braço por cima do meu ombro direito e apertando com a mão o meu ombro esquerdo. Uma nova e rápida bateria de flashes ofusca-me. Já não vou a tempo de dizer aos fotógrafos que o lado direito é o meu melhor perfil…

Entre frases de ocasião, e tão repentinamente como chegou, o presidente esgueira-se porta fora. Afinal havia todo um vórtice de obras, arranjos e arranjinhos municipais que reclamavam a sua presença para o habitual corte de fita e o consequente registo fotográfico para a posteridade (e propaganda). Da panóplia de chavões com que me brindou retinha as seguintes pérolas: “isto agora é que vai ser, com novo pavimento na sala-de-estar”; “colocamos sempre os interesses dos munícipes em primeiro lugar”; “esta obra é de grande qualidade”; “cumprimos as nossas promessas”; ou “não esqueça o que esta câmara fez lá para Outubro deste ano”.

 

Acordo com o toque da campainha da porta da rua. Felizmente tudo aquilo não passava de um sonho. Já desconfiava. Porque mesmo dentro daquele pesadelo espantava-me o surrealismo. Quem é que seria àquelas horas? Fui atender:

- Quem é?

- É o Presidente da Câmara.

 

 

Montijo, 20 de Janeiro de 2017