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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

O Pragmatismo Prognosticado

Nunca fui pessoa para alinhar na onda das previsões. Mas desta vez, e como durante uns tempos não teremos assombração do comentador Marcelo, vou abrir uma excepção e entrar no jogo. Traçarei um cenário daquilo que acontecerá nos próximos tempos, tendo como pano de fundo os resultados eleitorais e consequente problemática na formação de governo.

 

Logo para começar isto está uma balbúrdia pegada, porque ainda ninguém percebeu quem ganho e quem perdeu. E isso confunde o próprio presidente da república, que avisa desde logo que devemos ter um governo estável e de consenso entre os partidos políticos. Portanto decide falar apenas com o líder do seu partido. Assim fica tudo em casa, não há muitos alaridos e pode ser que se safe facilmente a situação sem muitas facas longas e afiadas. A questão constitucional de ter de ouvir todos os partidos com assento parlamentar antes de indigitar o primeiro-ministro é uma chatice. Ainda por cima os resultados finais ainda nem estão apurados e o parlamento conta já com 7 partidos políticos na sua composição; só serve para complicar. Então não seria mais fácil se houvesse apenas o PSD? Pronto, o CDS também podia existir, para desenjoar um bocadinho. Mais do que 2 é que já é uma manifestação.

 

Entretanto, o PS é uma espécie de solteirão rico mais pretendido do panorama políticos. De derrotado, Costa passou a desejado. Multiplica-se em reuniões para possíveis acordos governativos, à esquerda e à direita. No fundo temos 2 grandes cenários a analisar. Ou uma reedição do bloco central, com PSD, CDS e PS, ou uma convergência à esquerda nunca antes alcançada, com a participação de PS, BE e CDU. Tenho para mim a ideia que esta segunda opção não colherá junto do presidente da república. Os partidos da esquerda podem chegar à audição com o presidente da república com um acordo firmado, seja de constituição de governo em comum, seja de incidência parlamentar. Podem prometer este mundo e o outro, mas aposto que o presidente irá indigitar Pedro Passos Coelho para formar governo com a PàF.

 

Após essa “inevitabilidade” o combate será outro e travar-se-á nas bancadas do hemiciclo. Eu não sou gajo de humilhar o próximo e regozijar com a desgraça alheia. Mas o que julgo que acabará por suceder é o governo minoritário PàF ver imediatamente o seu orçamento chumbado pela maioria de esquerda e em cima disso levar com uma moção de censura em cima. Só para ser um pouco mais degradante, a moção é apresentada pelos Verdes. Isto tudo passar-se-á num prazo de 2 ou 3 meses. Presumivelmente até final do ano...

 

Perante esta situação, o governo de direita cairá, não conseguindo reunir condições para formar novo executivo. Por outro lado o presidente não pode dissolver a assembleia e convocar novas eleições. Primeiro porque ainda não passaram os 6 meses de lei, segundo porque está em final de mandato. A esquerda terá ainda no bolso o seu acordo de consenso governativo. Aí veremos Aníbal Cavaco Silva, uma criatura perversamente democrata, a engolir um sapo do tamanho da Torre dos Clérigos e indigitar António Costa para formar o primeiro governo de convergência à esquerda na história da democracia portuguesa. Como disse anteriormente eu não sou gajo de “vingaçazinhas”, mas esta dará um gozo especial.

 

Aludi a este exercício escrito como uma previsão, um prognóstico do que se passará nos tempos mais próximos. Não deixa de o ser. Mas é acima e antes de tudo, um desejo. A esperança imensa que seja agora que a esquerda parlamentar finalmente se una. Perante a conjuntura actual é essencial optar pelo caminho do pragmatismo político. Para evitar mais 4 anos de PàF vale bem a pena enterrar algumas querelas antigas e fazer um caminho conjunto. Quem sabe não será este o princípio de uma era progressista que o país tanto precisa. Portugal merece mais e o seu povo merece um governo de esquerda!

 

Montijo, 10 de Outubro de 2015