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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

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O perigoso Adolfo.

No Expresso do dia de ontem, 10-2-2018, Adolfo Mesquita Nunes, vice presidente do CDS-PP revelou uma parte importante e não pública da sua vida privada. Toda a gente já leu, toda a gente já comentou e, pelo menos no meu circulo de amigos virtuais, todos já aplaudiram a coragem de Adolfo. Não é para menos. Num país de velhos e maus costumes, assumir a homossexualidade quando se é dirigente num partido de direita, com a serenidade e coragem com que Adolfo o fez, não é para todos. E, por tudo isto, junto-me aos aplausos que lhe são merecidos e confesso a minha admiração pela coragem de Adolfo.

 

No entanto,a entrevista é muito mais do que isto. E aí entra em campo o meu, nosso, adversário político e defensor de uma ideologia que não aplaudo mas pretendo combater no campo político. Adolfo revela que se sente confortável num partido de centro-direita, ocupando o espaço num setor anteriormente ocupado pelo PSD. Na sua entrevista não fala da inspiração cristã, ou de humanismo cristão, deixando que o eleitorado mais conservador fique cativado pela religiosidade de Assunção Cristas e o eleitorado, mais liberal nos costumes, fique cativado com Adolfo. Esta estratégia, pensada e bem montada pelo CDS, coloca-o bem posicionado para responder aos setores mais conservadores do PSD que se revêm no chavão “liberal nos costumes e conservador na economia”, seja lá o que isso for.

 

Depois, Adolfo conta a sua história familiar, comum a muitos portugueses. Conta a falência das empresas da sua família, deixa-se fotografar junto a uma delas e assume a derrota que é sempre pesada e marcante. Esta parte pessoal é muito importante, porque permite que muitos portugueses se revejam nesta história de luta e de falhanço, sem mágoas e sem culpas. Num país onde só se elogia o sucesso, as histórias de fracasso são essenciais para muitos portugueses, que tudo arriscaram e tudo perderam, se revejam e se sintam acarinhados pela partilha da história familiar do Adolfo. Mas atenção, Adolfo descreve a história do seu avô e não a sua própria, recordando que uma das coisas que mais o emocionaram na campanha, foi o número de pessoas que o foi abraçar por “ser neto,bisneto de quem era”. E aqui está o busílis da questão “ neto de quem era”, a pertença a uma elite, que era caridosa com o povo. Adolfo descreve os micro-créditos concedidos pelo avô, colocando em campo o valor da caridade e não da solidariedade. E, como todas as histórias de insucesso têm um culpado, Adolfo identifica-o bem: Cavaco Silva.

E nessa subtileza nada subtil, Adolfo faz-nos esquecer os anos da troika em Portugal, quando o CDS-PP fez parte do Governo mais destrutivo desde o pós 25 de Abril, que levou à falência milhares de empresas e famílias.

 

Adolfo é perigoso sim. E cá estaremos atentamente para o escutar, para o combater e para lhe relembrar, sempre, os trágicos anos recentes que vivemos e dos quais o CDS-PP fez parte.