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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

O Partido Socialista inclinou-se para a esquerda?

 

No outro dia li uma notícia que tinha como titulo algo como “PS virou à esquerda”. Na altura não tive a oportunidade de opinar mas fá-lo-ei hoje, terminado o congresso do Partido Socialista.

Antes de mais temos de aceitar que um partido é um organismo vivo e com a capacidade de mudar ao longo do tempo e face a novas situações que se deparem pelo caminho.

É assim natural que o Partido Socialista tenha derivado mais para a esquerda ou mais para a direita, se tenha retraído na sua posição ou estendido na mesma ao longo dos tempos.

Mas mais do que considerar que um partido funciona como um organismo vivo, temos de considerar que os partidos são constituídos por pessoas e que cada uma delas é constituída por um pacote de ideias que no seu conjunto não serão iguais ao pacote de nenhum outro militante. Com uns a semelhança é maior, com outros menor. Certamente que existe um determinado conjunto de ideias base que faz com que as pessoas se concentrem num partido e não militem noutro.

Naturalmente que os extremos dos partidos se sobrepõem e elementos como Francisco Assis estão no PS mas poderiam estar no PSD que ninguém acharia estranho, do mesmo modo que outros militantes poderiam estar no PCP ou no BE que ninguém estranharia.

Francamente não me parece que o PS tenha virado à esquerda. Apenas se ajustou a várias realidades deste tempo. António Costa venceu as primárias socialistas precisamente porque os militantes julgaram que Seguro não fazia oposição ou pelo menos a que fazia não era eficiente.

Face ao Governo que nas legislativas se converteu na PaF a única hipótese do PS era desalinhar com a UE e com a austeridade, e os resultados não foram mais expressivos porque António Costa nunca se comprometeu com medidas drásticas.

O resultado a determinada altura tornou-se evidente, o PS poderia ganhar, e não ganhou, mas teria de encontrar aliados ou à esquerda ou à direita. Por motivos de campanha António Costa evitou sempre a ideia de um bloco central, disse ele, pelo menos enquanto Passos Coelho fosse dirigente do PSD.

O PCP como é sua tradição, cerrou fileiras mas deixou canais de comunicação abertos até para não defraudar as gerações mais novas dos seus militantes que apelam a mais dialogo e a maior responsabilidade governativa.

O BE que SEMPRE se colocou em posição de colisão com o PS enfiando-o dentro do mesmo saco do PSD, na última da hora dá uma guinada e abre canais de comunicação e assume que é possível dialogar mediante determinadas condições.

 Não foi possível um Governo de coligação mas pela primeira vez, e fruto do PS não ter ganho as eleições, formou-se um Governo socialista condicionado pelos acordos à esquerda.

António Costa talvez não seja um vencedor natural mas depois de vencer reconhecemos-lhe o poder de negociar posições que resultam numa convergência. Já o tinha feito e Lisboa e está a fazer a vaca voar no Governo nacional.

Terminado o congresso, o discurso de António Costa é espelho dessa consolidação de centro-esquerda sem abdicar de colocar à sua responsabilidade a convergência com os partidos de esquerda e deixando claro que ser português não é sinonimo de ser vassalo da União Europeia e que temos o dever de lutar democraticamente pelos nossos interesses.

Resumindo, António Costa proferiu um discurso que agradou à esquerda sem se esquecer de lançar as devidas farpas à direita e sem comprometer o seu centrismo.

Os socialistas ficaram agradados, os cidadãos da esquerda em geral ficaram agradados e esperançosos que a geringonça lutará na Europa por Portugal e pelos portugueses.

António Costa e a hábil característica de agradar a gregos e a troianos.