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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

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O (nosso) Zé Pedro

Apesar de ter crescido a ouvir Xutos e Pontapés, algo inevitável pois fiz-me adolescente nos finais dos anos 80 do século passado, nunca fui fã da banda. É certo que, como a larga maioria da população nacional da minha faixa etária, sei as letras todas de cor, mimetizo vocalmente os riffs do Cabeleira e galopo aos tambores do Kalú. Mas isso é apenas condição naturalmente imposta a alguém nascido em Portugal no ano de 1975. Na realidade não possuo um único registo discográfico dos Xutos e Pontapés.

No entanto, não sendo, como dizia, fã da banda, um invulgar fascínio prendia-me ao músico Zé Pedro. É sabido que não era um músico de eleição. E estou convencido que ele próprio tinha consciência disso. Mas o que me cativava nele ia para além da sua capacidade musical. O Zé Pedro era um melómano ímpar e um ser humano sem igual. Sempre desmultiplicado em mil e uma solicitações. Pessoa interessada por todo o fenómeno musical. Incentivadora de novas promessas. Mentor e actor de inúmeros projectos paralelos. Enfim, sobre isso já tudo foi dito e por pessoas muito mais avalizadas na matéria que eu próprio.

Nasci em Lisboa e cresci nos Olivais. Provavelmente é essa a razão para ter em tão boa conta alguém como o Zé Pedro. Até juraria que, quando era puto, por duas ou três ocasiões me cruzei com ele nos passeios daquele bairro tão particular. Mas para dizer verdade, não sei se isso foi facto ou desejo que se formou em evidente ilusão. A particularidade dos Olivais vai para além da sua arquitectura e do seu projecto urbanístico. Muito se fala das amplas áreas sem edificação, onde predominam espaços verdes e recintos dedicado ao lazer. No entanto, o grande segredo dos Olivais reside nas suas gentes.

Composto por uma população de diversas origens e estratos sociais, aqueles que nasceram ou cresceram nos Olivais têm um traço idiossincrático em tudo idêntico ao do Zé Pedro. Os olivalenses são, como é hábito dizer, uns “grandes malucos”. São aqueles indivíduos que vivem a vida a 100 à hora, bem depressa, sem demora. Tentado sorver em cada inspiração toda a razão de existir. Fazendo dos momentos passados com seus amigos marcos únicos. Sempre dispostos a tudo, para que nada fique por experimentar. Querem viver tudo já, agora, sem deixar escapar nada. E fazem-no com os sentimentos à flor da pele. Para que a experiência seja ainda mais autêntica. Mas o respeito pelos mais velhos, pelos seus semelhantes ou pelas gerações vindouras era algo que se apreendia naturalmente nas ruas daquele bairro, sem sequer haver necessidade de docência. Essa era uma dimensão que os distingue dos restantes “malucos”.

Os olivalenses compõem, muito provavelmente, de entre os bairros de Lisboa, a comunidade mais humana e amiga. Separei-me do bairro. Fui viver para longe e até passo largos períodos sem lá passar. Mas não consigo arrancar a marcar que há dentro de mim. A experiência que, com inúmeros erros e tropeções pelo caminho, me moldou como indivíduo.

Talvez seja essa a razão para que a maioria das pessoas, mesmo que sintam pavor ao ser mencionado o nome Olivais, afirmem peremptoriamente que têm, pelo menos, um bom amigo nesse bairro. Aquela pessoa muita maluca, mas que nunca se esquece de ti. Que te trata com carinho e respeito. Que é frontal e sincera. Gosto de pensar, e acho que estou certo ao fazê-lo, que a larga maioria dos olivalenses são assim.

Não sei ao certo se o Zé Pedro viveu muitos ou poucos anos nos Olivais. Mas para mim, quando me perguntam afinal o que é isso de ser olivalense, recorro ao nosso Zé Pedro. Músico por vocação e ser humano de eleição. Genuinamente boa pessoa. Sempre com sorriso franco e emoções na epiderme. Pessoas como o Zé Pedro não deviam partir. Cabe-nos a missão de não o deixarmos morrer nunca, remando contra a corrente do esquecimento!

Montijo, 7 de dezembro de 2017