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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

O Menino de Aleppo

Carregado ao colo é depositado no interior da ambulância. É filmado e fotografado. Visualmente documentado para memória futura. Mantém-se imóvel; quedo. Coberto de pó e pintado de sangue. Assim ficou conhecido o menino de Aleppo. Que terá nome certamente, como todos nós. Mas que possivelmente já o esqueceu. Entre o som das bombas e o cheiro da morte, perdem-se as sílabas...

69. menino de aleppo.jpg

Não quero dizer seu nome. Não o direi. Torna tudo mais pessoal. Aquela ténue fronteira entre sentir o choque e sentir a dor imensa por dentro, sem me conseguir alienar. O travo amargo da inquietude que tento recusar. Mas pleno da certeza de que todas as guerras são estúpidas! Fruto de inconstâncias, ganâncias e intolerâncias. No final, pouco importa quem tem razão para as vidas adiadas. E nada disso importa para as vidas perdidas. Nada compensa o horror.

 

 

O que importa realmente lembrar é que aquele menino, resgatado dos despojos, tem 5 anos de idade. Tantos como o tempo que dura a guerra civil na Síria. Aquilo é para ele, mais um dia banal. O único quotidiano que conhece. Apático enfrenta o que na sua mente sabia inevitável. Sabia-o há muito, quando ainda tinha nome, que um dia o som da sirene da ambulância seria para si. Seria para os seus.

 

Mas dói muito. Dói tanto ver aquele menino ali firme e que não chora. Como dizem dos homens. Mas eu sou homem e choro. Não consigo ficar indiferente. O desassossego inunda-me e transborda em lágrimas. Com a vista toldada alinho frases avulsas, na ilusão de que possam fazer diferença...

 

Montijo, 19 de Agosto de 2016

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