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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

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O Fim da Liberdade de Expressão

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Há dias sentei-me no avião, daqueles três lugares laterais, no do meio. Quem ia comigo nunca tinha viajado de avião e pediu para ir na janela. Obviamente que acedi ao pedido.

Ao meu lado, para a coxia, uma rapariga roliça, loira e de olho claro. Guardou a sua bagagem e sentou-se.

O avião começou a fazer-se a pista e a rapariga pegou num livrinho, tanto quando percebo, em árabe, e começou a lê-lo e assim continuou até que o avião já ia bem alto, acima das nuvens.

Fez-me lembrar o relato de Heitor Lourenço que foi preso por estar a meditar num avião…

Terminada a subida, pegou numa daquelas almofadas em U para o pescoço. Estranhamente, colocou-a ao contrário, enfiou a cabeça no meio dela como se fosse uma tartaruga a recolher a cabeça para a carapaça, e assim ficou a dormir, até à refeição.

À chegada, enquanto a rapariga se sumia num passo apressado, um rapaz jovem tinha o seu pequeno filho ao colo. Era judeu. A sua roupa que usava tornava essa informação óbvia, e se disser que usava calça preta, casaco preto, camisa branca, chapéu, barba  e o cabeço encaracolado nas suíças, também não terias duvidas.

 

Talvez em busca de um fraldário, passou em passo acelerado à minha frente. Estranhamente o tronco dele não se movia na vertical. As pernas moviam-se como se tivessem suspensão e o tronco não fosse influenciado pelo processo de caminhar.

Um e outro caso, relatei-os como estranhos, não porque tinham uma religião, mas porque fizeram algo de estranho ou caricato e que poderia ter sido feito por qualquer pessoa do planeta.

Sinto por vezes que começo a ser dos poucos neste mundo que não procurar nenhuma forma de violência, nem de receber nem de promover.

A rapariga não me incomodou porque lia, nem por parecer uma tartaruga. O rapaz não me inquietou nem pela roupa nem pela pressa nem pelo modo de caminhar. E nenhum deles mostrou animosidade ao cruzarem-se. A única pessoa com alguma animosidade era a senhora dos serviços alfandegários, de regresso a Portugal, que queria ver o que a malta trazia nos sacos.

Mas esta conversa não se fica por aqui.

Um rapaz, lá para Israel, partilhou um vídeo precisamente com estas preocupações. Ele é Vlogger, está na rua a gravar um vídeo e passa por ele um judeu. Ele explica o que faz, quantas pessoas o seguem e a determinada altura ele refere que é muçulmano e começa o debate entre eles.

Ele preocupa-se mais com o facto da irmã do primeiro judeu, aos 15 anos ter odio aos muçulmanos sem os conhecer. A mim, preocupou-me que o judeu, para justificar que aquele muçulmano afinal era um tipo normal, não podia ser muçulmano, mas francês. Ele tinha pinta de francês. Refiro-me ao judeu como judeu, não como sinal depreciativo, mas como única referencia que tenho para o distinguir do vlogger, esse chamado Nas, que é muçulmano. Ele próprio fica indignado que vizinhos, que alimentam ódios através do que lhes é vendido nas televisões, não possam viver em comunhão.

 

Deixo o vídeo para que possam ver como eu vi.

 

 

Mas não acabo os problemas de liberdade por aqui.

Mesmo no ocidente, pelo menos pessoas que procuram melhorar de modo moderado, não forçando nem sendo forçado, sinto que hoje em dia não posso dizer nada sem correr o risco de ser atacado por alguém.

Quem se expões como eu, a escrever o que pensa, arrisca-se a ser criticado, mas o meu problema não é estar sujeito à critica, é a tentativa de me tirarem a liberdade de expressão.

É até, tirando na esfera muito privada, proibido brincar com a vida. Uma piada que inclua doenças, minorias, franjas sociais, preconceitos, conceitos, maiorias, religião, politica, futebol, vida em geral, equivale a uma quantidade imensa de dedos acusadores. E não sou só eu que o digo. Os comediantes, esses que vivem de fazer humor com o que a vida oferece, dizem que o humor já hoje está castrado.

Devo dizer que não sou fã do Rui Sinel de Cordes. Nada relacionado com as polémicas, mas prefiro outros registos. E à conversa com Rui Unas no seu programa “Maluco Beleza” ele diz que em Londres fazer piadas sobre etnias, minorias, deficientes e afins é meio caminho andado para não trabalhar no mundo da comédia. Só aqueles que são velhos humoristas do humor negro podem hoje abeirar-se desse tipo de piada.

 

E não é só no humor.

Ainda há pouco tempo disse que a palavra feminista me leva para a ideia de uma posição oposta ao que existia, ou seja, sair-se de uma sociedade patriarcal para uma sociedade matriarcal, e que defendendo uma palavra de igualdade entre cidadãos, porque de tudo, quando um cidadão nasce tem direitos iguais a qualquer outro na mesma condição, fui logo atacado, até pelos meus pares que noutras circunstancias pedem “igualdade”.

E neste caso pedem-no também, mas não engolem que eu não aceite a palavre “feminismo”.

 

Rui Sinel de Cordes, neste especto tem razão. As pessoas hoje juntam-se em matilhas através das redes sociais e castram a liberdade de qualquer um, pelo menos até que ele se silencie com posições contrárias ao main stream. E se este não encontra uma falange de apoio, o melhor é meter a opinião no saco da viola e seguir viagem.

 

Valha-me a liberdade que me resta para continuar a escrever…