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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

O Discurso do Rei

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O Professor Marcelo falou ontem aos portugueses no meio do cheiro a fumo, mas depois de o ouvir, cheirou-me a esturro.

Desde que foi eleito, e até agora, tem dito um discurso coerente e de certa forma coordenado com os outros órgãos de soberania nacional e isso, é preciso sublinhar, resultou no optimismo e melhoria das condições gerais do Estado. Mais confiança, mais emprego e uma luz ao fundo de um túnel que já era longo.

Neste discurso em particular rompeu com o restante mandato e atrevo-me até a dizer que colocou muita ideologia partidária e objectivos partidários à frente do país.

É certo que começa com um discurso politicamente correcto em solidariedade com as vitimas, num discurso correctíssimo que temos daqui tirar ilações para compreender o que correu mal com base nos incêndios que vitimaram pessoas a mais e alterar o que for alterável para que, não sendo impossível evitar na totalidade, diminuir a dimensão, melhorar a resposta de modo a minimizar tragédias.

Mas depois, e ele próprio o refere, passa para um olhar politico do assunto.

Começa por pedir cabeças. Alguém tem de ser culpado de alguma coisa e como não se podem pedir cabeças de ministros e governos do passado, alguém terá de se sacrificar agora.

Com honestidade intelectual, pergunto-me o que poderia ter feito esta MAI desde Novembro de 2015 para evitar esta tragédia.

Poderei dizer que anda não tomou iniciativas, mas mesmo que o tivesse feito tenho a certeza que no terreno ainda pouco ou nada estaria implementado.

Traduzindo o que o professor Marcelo diz, esta ministra não serve, terão de escolher alguém capaz para o “novo ciclo”.

Até poderia compreender o discurso se ele tivesse terminado por aqui. A população está frustrada e precisa de sentir que se vai fazer alguma coisa e uma cabeça é um bom placebo para aliviar a frustração.

Mas não acaba aqui e junta-se a Assunção Cristas num claro voto de censura ao Governo.

Não o faz na dimensão das suas possibilidades, já que derrubaria um Governo com base em coisa nenhuma e provavelmente o PS voltaria a ganhar com ou sem maioria, mas força a esquerda a cerrar trincheiras para o bem e para o mal indo até ao encontro do discurso anterior cheio de avisos para evitar um OE2019 com medidas eleitoralistas.

O professor Marcelo neste discurso não foi o Presidente de todos os portugueses, foi o Presidente da direita nacional.

Arremata o discurso dizendo que, mesmo por culpa alheia, o PM e o Governo teriam de pedir desculpas às vitimas, às famílias das vitimas e aos portugueses.

Como disse acima, não vejo o que poderia ter feito, em quase dois anos de mandato, que tivesse melhorado na prática o que aconteceu neste verão quente de 2017. É preciso dizer que falamos agora no fim do ano, mas teriam de ser medidas já em vigor no inicio deste ano, ou seja, ao fim de um ano de mandato.

O discurso do rei foi apenas isso, uma parcela de discurso para ganhar apoio do publico fazendo-se juntar ao momento de dor e a partir dai o completar com uma agenda politica partidária com base numa ideologia, a sua ideologia.

Que não se leia aqui que o PR não deva ter espirito critico e que não deva pedir do Governo mais e melhor. Sendo Presidente de todos os portugueses, não deve ser promotor partidário, deve ser antes pivot de estabilidade e coesão nacional e desta feita fez precisamente o contrário, atacou ministra, colocou a solução governativa em causa, fez um ataque pessoal a António Costa.

Foi feio, foi muito feio.