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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

O Colaborador

O Colaborador trabalha afincadamente. Entra cedo e nunca tem horário de saída. Esmera-se para ficar bem visto aos olhos do patrão. Não acredita nos sindicatos nem em comissões de trabalhadores, considerando que tais estruturas são um empecilho ao crescimento. O Colaborador tem a sensação de que as coisas estão melhores. Pelo menos parece-lhe que agora é tratado de forma mais condigna, desde que começou a ser designado como Colaborador. A organização, que outrora era a empresa, passou a adoptar este tratamento para com os seus funcionários. Realmente ser tratado como trabalhador parecia algo insultuoso; um tratamento antiquado, reflexo do século passado. Trabalhadores são os pedreiros e o pessoal da fábrica. Ele até trabalhava, melhor colaborava, num escritório de uma seguradora. Sim. Definitivamente o substantivo Colaborador enchia-lhe o peito de orgulho. Outras coisas haviam que lhe pareciam ser um melhoramento na sua vida. Por exemplo, agora já não recebia um ordenado mínimo. Que nome mais reles, esse... Tinha direito a uma retribuição mínima mensal garantida. Olarila, essa e que é essa!

105. o colaborador

 

Decididamente a globalização e a deriva neoliberal da economia começavam a dar os seu frutos. O Colaborador só não percebia porquê que caía na sua conta cada vez menos dinheiro, ao mesmo tempo que a banca cobrava mais despesas de manutenção, taxas e taxinhas várias. Mas o Colaborador aguentava estoicamente. Já lhe tinham explicado que a conjuntura económica não era a melhor e que todos teriam de fazer sacrifícios. O Colaborador sentia lisonja em ser tratado ao mesmo nível dos restantes, apesar de lhe parecer que às altas chefias não tinha chegado o aviso (o memo) da necessidade de fazer sacrifícios.

 

Certo dia foi dito ao Colaborador que a organização se iria reestruturar e que isso seria uma excelente oportunidade para ele sair da sua zona de conforto e mudar de vida. O Colaborador aplicou-se ainda com mais afinco à rotina laboral. Raramente via a mulher e filhos durante a semana. Aos sábados ainda ia à organização colocar mais umas papeladas em ordem sem garantia de qualquer retribuição. Ao domingo, morto de cansaço, dormia o dia inteiro. Mas o Colaborador explicou à esposa que poderia ser esta a oportunidade que aguardavam.

 

Passados 3 meses, o Colaborador é finalmente reestruturado... Agradeceram os seus valiosos préstimos e a lealdade apresentada ao longo dos últimos 30 anos e oferecem-lhe uma carta para apresentar no Instituto do Emprego e Formação Profissional, bem como um boné com o logótipo da organização. O Colaborador não consegue entender como se tinha chegado àquele ponto. A linguagem e a forma como tinha vindo a ser tratado este assunto não adivinhava tal desfecho. O Colaborador só desejava que pudesse voltar a ser tratado como trabalhador, ou mesmo como funcionário. Mas era tarde demais. Agora, com 55 anos de idade, sentia que a sua vida estava verdadeiramente fodida. Perdão, com esta oportunidade que lhe era proporcionada teria agora a liberdade de fazer o seu próprio horário e usufruir de todo o oxigénio que conseguisse respirar, enquanto passava o tempo nos bancos de jardim dos formidáveis parques municipais.

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Montijo, 2 de Fevereiro de 2017

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