Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

(nunca) Desperdiçar Abril

110.png

O Capitão estendeu a mão e disse: “toma, isto é para ti”. Aceitei. Observei incrédulo o que tinha agora em meu poder. Um lápis azul. Um banal lápis azul. Com a particularidade de estar quebrado… Perguntei para que precisava de semelhante objecto, ainda por cima partido. O Capitão sorriu pacientemente e explicou o significado daquela simbólica oferta. Que representa a liberdade, o direito que as pessoas têm de questionar, o dever que as comunidade têm em escolher seu rumo. E o imenso presente da democracia. Esse conceito tão radical que consiste em ter uma classe política saída do povo, escolhida pelo povo e que governe para o povo.

 

A quebra do lápis azul permitiu subir as persianas e deixar entrar a luz, no país mergulhado numa longa noite de 48 anos; abrir as janelas e expulsar o cheiro a bafio. Para além do seu simbolismo, o lápis partido quer também gravar memória. Para quem ninguém esqueça o que o país passou e as lutas que travou. Deixando o alerta de que outras formas de ditadura se podem abater sobre nós; num cardápio infinito de sistemas autoritários. Que não basta dizer que vivemos em democracia; é preciso exercitá-la e exercê-la. Participar activamente no quotidiano da construção de um país com uma democracia ainda relativamente jovem e por vezes débil. A cidadania não deve refutar o seu papel central na consolidação da mesma.

 

Que se calem as armas e se soltem as palavras. Que a luta siga, mas no campo das ideias. Que se discutam modos e modelos; princípios e ideais. E que o salutar confronto de opiniões seja profícuo e resulte em consenso, sempre que possível.

 

O Capitão lá seguiu seu caminho. Com o cravo na ponta do fuzil e uma esperança imensa de continuar Abril.

 

Hoje, 43 anos após o grito da revolução temos uma sociedade que parece adormecida e que descansa sob a sombra das suas conquistas. A liberdade, a democracia, a solidariedade são vistos como direitos adquiridos. Mas apenas no plano individual; egocêntrico. Que isto de respeitar o espaço de outrem, ouvir a sua opinião ou perceber as suas necessidade e anseios, é uma grande chatice. No fundo, o melhor que Abril nos deu, foi o feriado do dia 25…

 

A campainha da porta toca com insistência acompanhada de batidas constantes. Mas quem, neste dia feriado, ousa interromper o meu descanso? Agora que me preparava para ouvir o Zeca numa versão para piano preparada para a sessão solene transmitida pela televisão. Sim, porque eu sou um revolucionário! Neste dia faço sempre questão de ouvir o cantautor, cujas palavras esqueço o resto do ano. Espreito pelo óculo da porta. É o Capitão. E parece irritado. Grita que lhe devolva o lápis. Não sou digno de ser seu fiel depositário. Que me aburguesei. Não no que concerne aos hábitos, isso pouco interessa, mas no plano do pensamento. Tem razão…

 

Mas eu não quero devolver o lápis. Sei que provavelmente ando a desperdiçar Abril, mas não quero voltar à longa noite, agora que gozei a luz do dia. Gosto de respirar liberdade, embora pouco ou nada faça para a repor. Sim, porque esta coisa da liberdade é um recurso efémero, que se esgota por muitos lados.

 

Abro a porta da rua resignado, com o lápis quebrado na mão aberta. Mas nesse instante estou também resolvido a não ser um mero consumidor de liberdade. Quero ser seu actor; seu produtor. Quero contribuir para a sua reposição. O Capitão estuda meu semblante, entende-me e recusa a devolução do lápis azul. Passa o braço por cima do meu ombro num abraço fraterno. Juntos descemos a avenida que por enquanto ainda é livre, mas que necessita da contribuição de todas e todos para assim se manter. Para que nunca se desperdice Abril. E para estarmos à altura do seu legado.

 

Montijo, 24 de Abril de 2017