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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Nem mentira, nem verdade

Pelas ruas do Montijo, os munícipes já se habituaram à presença dos gigantescos cartazes (hoje denominados "outdoors") onde a Câmara Municipal nos presenteia com o título de cidade mais atrativa de Portugal continental. Em tom de bricandeira, costumo dizer que as estruturas que suportam estes cartazes, são o mobiliário urbano mais bem tratado da cidade. Adiante. Numa rápida pesquisa ao sítio oficial do município na internet ficamos a perceber a que se refere tal epíteto. Com efeito essa distinção não existe em si mesma. Foi extrapolada do estudo do Instituto Nacional de Estatísticas (INE) - "Cidades Portuguesas: um retrato estatístico", baseado no Censos de 2011 e que veio a lume em 31 de Outubro de 2014, através de informação à comunicação social. Mais concretamente, o executivo camarário refere-se à estatística "Proporção de população que 5 anos antes residia fora do Município, Portugal e cidades das regiões NUTs 2", onde o Montijo apresenta uma percentagem de 18%, sendo efectivamente a cidade que, em termos relativos, mais população fixou no território continental. E sobre este assunto o INE nada mais diz. Podem consultar a nota do Instituto aqui.75. nem mentira nem verdade.jpg

 

Surfando essa onda, a Câmara Municipal decide, e bem, fazer eco desta constatação. Mas rapidamente o que deveria ser uma simples réplica do estudo do INE, que em boa verdade não avança com qualquer explicação para este fenomeno, se torna num enredo de consistência errónea. É que há coisas que não sendo mentira, também não correspondem inteiramente à verdade. Na nota que publica no site oficial do Município (http://www.mun-montijo.pt/frontoffice/pages/833?news_id=601) depois de acertar no 2 primeiros parágrafos, resvala dizendo que "Este estudo é revelador da localização privilegiada que o concelho do Montijo assume na Área Metropolitana de Lisboa (...)". E continua até ao final num auto-elogio provinciano, que em nenhuma parte do estudo do INE encontra respaldo. Já na rubrica Retrato Estatístico que está inserida na área Investir do site da Câmara (http://www.mun-montijo.pt/pages/923), adianta-se que "Entre as razões que contribuíram para os resultados deste estudo, encontra-se a qualidade do espaço público, nomeadamente a existência de muitos espaços verdes (...)". Mais uma vez se começa com as 3 primeiras frases certeiras, para rapidamente surgirem interpretações dúbias que, segundo a Câmara, se baseiam no estudo do INE.

 

 

Na altura, o Diário de Notícias (DN) e o Diário da Região (DR) também abordaram o relatório do INE. O DN falou com 2 ou 3 pessoas e descobriu que a Ponte Vasco da Gama e o factor económico vinham à cabeça das razões pelas quais se fixava população no Montijo. O sossego e qualidade de vida também foi referenciado. Já o DR limita-se a analisar o estudo, nomeadamente no que concerne às cidades da região e dá tempo de antena ao edil do Montijo.

 

Para que fique claro acho perfeitamente normal que a Câmara Municipal faça a apologia do trabalho executado durante os mandatos, actual e transactos, e o divulguem. Mas se formos intelectualmente honestos não podemos dizer que o aumento populacional apresentado no estudo do INE se deve às políticas camarárias, porque pura e simplesmente não existem dados que suportem essa conclusão.

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Todos sabemos que uma cidade que atraí população não é necessariamente atractiva. Existem um sem número de factores a levar em linha de conta. E quando uma pessoa decide fixar residência, por muito que se diga o contrário, o factor económico continua a vir à cabeça. Se o Montijo fosse realmente atractivo, os novos residentes não moravam apenas na cidade; viviam-na! E tal não sucede. O grande aumento populacional deu-se para os lados do Afonsoeiro, onde alguns residente muito raramente vão ou nunca foram à baixa do Montijo...

 

 

Para uma cidade ser atractiva não basta plantar betão, negociar umas contrapartidas verdes e lúdicas com os empreiteiros e aguardar o mais que provável aumento da população. É preciso apresentar essas pessoas ao Montijo, à sua identidade. Incluí-las na comunidade local. Não basta ceder-lhes um dormitório e afirmar que temos um óptimo Centro Comercial, como afirma o Presidente de Câmara Nuno Canta na entrevista do DR de 7 de Novembro de 2014, como intuito de ilustrar a "melhoria do comércio".

 

Bem sei que dá bastante trabalho e demora o seu tempo constituir uma identidade. E incentivar e espicaçar o activismo na comunidade local, ainda é mais difícil. Mas desbaratar todo o património cultural de um território demora menos tempo que um fósforo a arder. Torna-se fundamental aproveitar todo este potencial para enriquecer a identidade montijense , fundamentada num fenómeno inclusivo, no qual a comunidade é agente activo em moldar a nova cidade. Será ela, como colectivo, que melhor decidirá qual o rumo futuro. Para dessa forma a cidade se tornar realmente atractiva ao olhos de todos/as.

 

Montijo, 17 de Setembro de 2016