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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Mudança Permitida

As coisas agora são diferentes. A realidade é outra. O mundo mudou. Estas são alguns dos chavões que nos atiram diariamente. Políticos, comentadores, empresários, jornalistas entoam estas máximas; afinados, unos. Não vale a pena discordar deste cenário, até porque o mundo realmente mudou… Mas valerá a pena colocar algumas perguntas: “porquê que o mundo mudou?” e se “mudou no sentido correcto?”

 

A resposta a estas questões não é óbvia e com certeza albergará muitas outras variáveis para além do adianta nestas linhas. Do caminho para uma sociedade mais justa deparamos agora com um fosso cada vez maior entre ricos e pobres. Uma sociedade iníqua, precária e desigual. A evolução civilizacional estagnada e até em marcha atrás.

 

Grosso modo, mas últimas duas décadas e meia tem-se assistido ao galgar de terreno por parte do neoliberalismo. Uma cruzada incessante por parte dos grandes grupos económicos, em conluio com os governos dos vários estados, no sentido de desregular a actividade económica, tendo assim carta branca para actuarem como melhor entenderem. Este deixar passar/ deixar fazer tem conduzido a inúmeros atropelos laborais, sociais, ambientais, económicos e fiscais. E o fenómeno hoje em dia é global, além de extremamente complexo e intricado.

 

O ataque aos direitos do trabalho não conhece tréguas. A precariedade é hoje uma inevitabilidade. As desigualdades aumentam constantemente, o que fragiliza sobremaneira o tecido social. O ambiente há muito que deveria ser uma prioridade. Mas as grandes empresas relevam esse factor em detrimento da ganância do crescimento perpétuo e da ditadura dos resultados semestrais. A exploração petrolífera, a extracção de gás de xisto através de fractura hidráulica, a desflorestação, o planeamento territorial e a pressão sobre os recursos locais, tudo provas de que ainda agora não entendem a urgência ecológica. E as fugas constantes ao fisco; a corrupção; os negócios facilitados. Minam a malha económica de qualquer país e é particularmente preocupante em pequenas economias como a portuguesa. Os paraísos fiscais e a consequente fuga de capitais que deveriam entrar na nossa economia, que quedar-se-ão inertes sob as palmeiras, a servir de cama de rede para algum gato gordo.

 

Portanto porquê que o mundo mudou? Mudou para facilitar o interesse de quem já detinha o capital e que pretendia continuar a aumentar o seu pecúlio. Insaciáveis e ávidos de mais, sempre mais. Sem perceberem que pela via actual depressa acabará a possibilidade de continuar a acumular.

 

Agora: mudou no sentido correcto? Bem isso depende do ponto de vista. Para o cidadão comum, o trabalhador e que é a base deste sistema que se serve das pessoas e as corrompe, certamente que mudou para bastante pior. Para os grandes poderes económicos e seus facilitadores, isto nunca esteve tão bom, com tendência para melhorar ainda mais.

 

Isto leva-nos a uma nova pergunta: quem permitiu que a realidade muda-se? Aí a resposta parece óbvia, embora não seja fácil de encarar. Se podemos considerar a classe política dos sucessivos governos e parlamentos os responsáveis directos pela alteração de paradigma, somos todos nós cúmplices da mesma pela inércia ao assistirmos, impávidos e serenos, a mudança do mundo do conforto do nosso sofá.

 

Montijo, 15 de Novembro de 2015