Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Montijo, jamais (?)

Abaixo transcrevo texto de opinião publicado hoje no Diário da Região, jornal do distrito de Setúbal.

Opiniao_Diario-Reg_2016-08-05.jpg

Quando o acidente se deu a notícia era outra. A espuma dos dias enchia o Caneco e tal não se compadecia com notícias tristonhas. O tempo era de alegria e de exultação, não devendo ser manchado por uma tragédia que retirou vidas humanas. Por isso, o acidente com um avião da Força Aérea que no dia 11 de Julho de 2016 ocorreu na Base Aérea n.º 6 no Montijo, não fez manchetes nacionais. E até ao comentador, perdão, o Presidente da República, dizer que se iria deslocar ao local, mal se conseguisse desenvencilhar da tonelada de comendas desportivas agendadas meio à pressa, ninguém ligou muito à questão. Afinal o que são 3 mortos e 1 ferido grave quando 11 milhões festejam...

 

Pese embora esta notícia ter sido relegada para segundo plano, a temática que a mesma abrange deveria marcar a agenda mediática. Nos últimos tempos tem-se falado na saturação do Aeroporto Humberto Delgado (Lisboa) e na necessidade de encontrar uma solução, seja ela permanente ou temporária. Segundo rezam as crónicas, a preferência que vai ganhando destaque é a da criação de uma pista complementar, a funcionar em sintonia com o Aeroporto da capital, e que a mesma se situaria precisamente na B.A. n.º 6, no Montijo.

 

Ora tal opção merece uma cuidada análise e uma discussão profunda entre a comunidade local. São demasiadas as questões em torno da possível fixação de um projecto de aviação civil na cidade do Montijo. Questões de segurança, num espaço paredes meias com a cidade do Montijo e a vila do Samouco; ambientais, num local inserido no Estuário do Tejo; de mobilidade, de e para o Aeroporto para os seus utilizadores e de vulgar circulação para a população local; de qualidade de vida, colocando em causa o sossego e conforto dos munícipes. Depois temos ainda uma questão transversal, sobre a lógica económica deste projecto. A implantação de um aeroporto complementar ao de Lisboa será sempre uma solução a prazo, seja por uma década, seja por cinco. Mais tarde ou mais cedo teremos de enfrentar a inevitabilidade de construir uma estrutura de raiz. Falamos, pois, de uma duplicação de investimento para todos os contribuintes.

 

Podemos contrabalançar tudo isto com o forte input económico que geraria semelhante empreendimento. Com o desenvolvimento económico para toda a região. Provavelmente criaria inúmeros postos de trabalho e alguns turistas teriam tendência a “tropeçar” pelas nossas ruas. Podemos contrapor que também o Aeroporto Humberto Delgado fica na malha urbana da cidade de Lisboa. Muito embora aquando da sua construção o mesmo se situasse fora da mesma. Mas isso não significa fazer tábua rasa da política e legislação respeitante ao ordenamento do território e até das regras do mais elementar bom senso (que não deve ser confundido com senso comum).

 

Em suma, são precisos estudos técnicos rigorosos, incluindo o obrigatório Estudo de Impacte Ambiental, e um debate local intenso e elucidativo, no qual a voz da população deve ser levada em linha de conta. É certo que se trata de um investimento estratégico nacional, mas não deixa de ser verdade que o pretendem construir no nosso quintal.