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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Mesa do canto

Para um lado, os homens falavam da bola. Do penalti por assinalar e do fora-de-jogo posicional. Da táctica e da técnica. Por outro lado, as mulheres discutiam as últimas revelações das novelas televisivas. Suas voltas e reviravoltas. Também dissertavam sobre os e as concorrentes do último reality show, seus defeitos e qualidades. Naquele café, a animação era muita. E eu esquecido numa mesa do canto, de costa voltadas para o televisor, queimava tempo para ir buscar o miúdo aos treinos.

 

Pensava que tudo seria mais simples se me inserisse e participasse na maioria das conversas de ocasião. Se fosse um homem que gostasse de bola e perdesse horas a fio a discutir o tal cartão amarelo que ficou por mostrar ao minuto 13 da etapa complementar. É que aquilo é assunto que dá pano para mangas. Muita malta consegue estar toda a semana útil a discutir o golo anulado do domingo passado. É um desbloqueador de conversa, um quebra-gelo. Se dois homens partilham a paixão por um mesmo clube de futebol, automaticamente surge uma cumplicidade difícil de explicar. Porque na realidade ela se baseia em coisa nenhuma. Podem ter feitios totalmente contrários, valores antagónicos, pensamentos divergentes, mas quando se fala do clube, toda a racionalidade se vê de repente posta de parte. Que se celebrem as vitórias e se arranjem desculpas para as derrotas. Mantenha-se um sabor enciclopédico de tudo o que envolve o clube. As conquistas e troféus. Os resultados e as datas. O nome de todos os jogadores do plantel da última década e dos melhores ou mais marcantes que passaram pelo clube. E caso falte assunto, que se beba do sumo dos 3 jornais diários desportivos, que alimentam o mundo da bola. Por lá há sempre polémica. Programas televisivos sobre bola também não faltam. Não me refiro apenas à transmissão dos jogos de futebol. Há programas, com horas de duração, a falar sobre bola. Exaustivamente; repetidamente.

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Este é o quotidiano e o que realmente importa. Entretanto, eu penso na política nacional, na deriva internacional, nas alterações climáticas, em Almaraz, nos transportes públicos, nos direitos laborais, no Serviço Nacional de Saúde, na escola pública, na actividade cultural, na corrupção, no presente e no futuro… E no que vou fazer para jantar. Penso ainda, que talvez fosse mais feliz, e muito menos esquecido a uma mesa do canto, se ligasse um bocado à bola.

 

Alcochete, 26 de Janeiro de 2017