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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Máscara Sindical

No passado domingo, dia 11 de Outubro de 2015, Carlos Silva, secretário-geral da União-Geral de Trabalhadores (UGT) foi entrevistado pela Antena 1 e pelo Diário Económico, no programa “Conversa Capital”. É apresentado precisamente pelas funções que ocupa, ou seja, como secretário-geral da UGT. Durante a entrevista afirma peremptoriamente que defende uma solução política à direita, com o PS a juntar-se à coligação PàF. Que essa seria uma solução de estabilidade que vai de encontro aos interesses dos trabalhadores. E não, não é para rir. Isto passou-se mesmo. E foi o dirigente máximo de uma central sindical que o disse.

 

No dia seguinte, após a celeuma causada por tais declarações, aparece uma nota de esclarecimento, a qual afirma “(...) que a opinião expressa apenas vincula a pessoa do secretário-geral da UGT e não uma posição da central ratificada nos seus órgãos”. É pior a emenda que o soneto, depois do tropeção de Carlos Silva na rádio pública, vem a UGT e ainda lhe prega uma rasteira, para que seja um bocado mais difícil reerguer-se. Mas o próprio também ajudou à festa, pois declara à Lusa que esta opinião o vincula apenas a ele.

 

Para que não restem dúvidas, o que o líder da UGT afirmou, e que se encontra plasmado na transcrição do Diário Económico (“Não me parece que as forças à esquerda do PS dêem garantia de estabilidade”), foi que “Tendo a UGT socialistas e social-democratas, não me parece difícil perceber que para a UGT/central sindical seria preferível que a estabilidade governativa assentasse por um entendimento, por um compromisso entre a coligação que venceu as eleições e o PS”. Ora se estas palavras não vinculam a Central Sindical eu sou uma nêspera.

 

Continuando a senda de barbaridades o dirigente sindical, nas mesmas declarações à Lusa afirma “A central sindical não se deve pronunciar sobre a formação do Governo (...)”. Fechou este triste episódio com chave de ouro, sem dúvida. Então uma central sindical não deve ter opinião sobre a constituição do Governo do país, que será, em última análise, o responsável por todas as políticas laborais? Uma organização que prima pela defesa dos trabalhadores e dos seus direitos deve ter uma opinião formada sobre o seu interlocutor e parceiro de concertação social. Outra coisa é a resistência à partidarização sindical, que a meu ver faz todo o sentido. Até porque pode criar dúvidas sobre as motivações de determinadas tomadas de posição dos sindicatos ou das centrais sindicais. Mas neste capítulo Carlos Silva faz questão de se declarar socialista...

 

Não será difícil perceber as motivações do líder da UGT. Este senhor de 54 anos é ex-quadro do extinto BES. Anda há tempo demais nestas andanças e movimenta-se por ruelas de reputação duvidosa. Já percebeu que não tem para onde voltar. É uma réplica quase perfeita de João Proença. Ambos podem dizer que são filiados no PS, mas nenhum poderá afirmar em consciência que é socialista. Buscam o poder e o reconhecimento pessoal. O contrário do que deve ser o sindicalismo.

19. mascara sindical.jpg

 

Com efeito, este tipo de pessoas não tem lugar no sindicalismo. Os que se preocupam mais em preservar uma paz social podre e em parecerem bem na fotografia, do que estar ao lado dos trabalhadores, das suas necessidades e anseios. De vez em quando falam em negociação colectiva e salário mínimo nacional, mas como meras palavras; vazias de esperança e conteúdo. Com estes, os trabalhadores já sabem que não podem contar. Será sempre a perder direitos. Tal como com a coligação de direita.

 

A Carlos Silva caiu definitivamente a máscara. Depois disto, ninguém será levado ao equívoco quando seu nome for pronunciado. O problema não está na defesa dos partidos de direita. Há trabalhadores de todos os quadrantes ideológicos. O problema reside na defesa desta coligação em particular, que em quatro anos atentou mais contra os direitos laborais do que qualquer governo anterior. Foi uma legislatura que fez com que todos os trabalhadores regredissem no mínimo uma década. E isso, sindicalmente, é imperdoável.

 

Cabe agora à UGT fazer uma reflexão interna sobre este episódio. Perceber se quer como secretário-geral Carlos Silva – o camaleão sindical, que sai extremamente fragilizado de toda esta situação. Aparentemente, já se percebem dissidências internas. Tal ficou patente na desautorização das palavras do líder por parte dos órgãos da Central.

 

É particularmente triste que a UGT não pareça estar à altura do momento histórico que o país atravessa. Muito por culpa da sua liderança, que obviamente a marca. Pela primeira vez na democracia nacional, uma ampla frente de esquerda tem hipóteses reais de formar Governo, trazendo consigo os seus valores. A confirmar-se, tal traduzir-se-á numa agenda política progressista para o país. Muito sinceramente, não percebo como é que os trabalhadores podem perder com isso...

 

Montijo, 13 de Outubro de 2015