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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Lisboa menina e moça...

 

“Lisboa menina e moça, menina

Da luz que meus olhos vêem tão pura

Teus seios são as colinas, varina

Pregão que me traz à porta, ternura

Cidade a ponto luz bordada

Toalha à beira mar estendida

Lisboa menina e moça, amada

Cidade mulher da minha vida”

 

Assim canta Carlos do Carmo a cidade de Lisboa.

Mas Lisboa já não é nem menina nem moça, é antes uma mera prostituta que se vende à carteira maior.

Lisboa há muito que é conhecida e reconhecida pelos seus encantos e sempre teve turistas que a visitaram e visitam. Mas hoje, sobretudo nas zonas mais “turísticas” é mais difícil encontrar portugueses do que estrangeiros.

Nada contra eles que eu gosto muito da multiculturalidade. Mas Lisboa já não é o que era.

A face mais visível, para além dos próprios turistas que por cá andam agora o ano todo, são os tuc-tuc, essas caixinhas de poluição sonora e atmosférica que passam o dia a cruzar a cidade. A estes se adicionam uns carrinhos amarelos de dois lugares, igualmente poluidores, igualmente barulhentos.

Mas há uma parte menos visível deste negocio e é menos visível porque está atrás de fachadas que muitas das vezes já existiam. Os hotéis, hostels e locais de pernoita afins.

De há cinco anos a esta parte os hotéis proliferam como cogumelos. Entre palacetes vendidos aos privados sem qualquer tipo de respeito pelo património a edifícios recuperados e convertidos em hotéis ou hostels, a novos hotéis, eles brotam por toda a cidade.

A cidade conhecida pela sua hospitalidade natural deixou de o ser. Onde viviam pessoas agora vivem hotéis. Já não há hospitalidade onde não há pessoas. A única hospitalidade é igual a tantos outros sítios do mundo servida pelo empregado de mesa do restaurante de ocasião e do concierge do hotel escolhido. Ao turista sobra apenas o taxista que cobra 20 euros do aeroporto ao Martim Moniz ao mesmo tempo que reclama do serviço da Uber.

Em Lisboa já nem sequer a calçada portuguesa serve de referência. Por incomodar os saltos altos é substituída paulatinamente por placas de pedra polida ou pior, por blocos de cimento.

A restauração é agora de modern cuisine. Sobram as sardinhas no verão mas até os pastéis de bacalhau foram agora integrados na modernice culinária para “inglês ver”. A restauração em Lisboa é hoje praticada a preços proibitivos para o comum dos portugueses. Estes foram empurrados para a marmita, para o almoço ao balcão ou obrigados a deslocar-se para zonas mais periféricas da cidade.

Lisboa não é uma prostituta. Erro meu. É uma acompanhante de luxo usada apenas por quem pode pagar.

A Lisboa de antigamente desagradaria de algum modo aos turistas?

Não me parece que assim tivesse sido. Então porque desvirtuar em seu nome uma cidade admirada há centenas, talvez milhares de anos?