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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Limites Laborais

Com a evolução tecnológica e a cada vez maior mecanização do trabalho foi criada a ideia que haveria mais tempo livre e que as tarefas diárias seriam mais leves. As pessoas poderiam assim enfrentar jornadas laborais mais reduzidas e/ou menos cansativas, mantendo o nível de rendimento salarial. Dessa forma sobraria mais tempo para se dedicarem ao lazer, à comunidade, à vida social, à sua valorização como ser humano. Pelo menos era isso que era expectável, mas algo falhou pelo caminho. De ideia romântica, o princípio passou a pesadelo… Convém perceber melhor o sucedido.

 

Pedro Afonso, médico psiquiatra, em entrevista ao Jornal de Negócios no dia 30 de Outubro de 2015, conduzida por Lúcia Crespo, fala precisamente das questões do trabalho, mais concretamente dos seus exageros e abusos. O mote para esta conversa foi o recente lançamento do seu livro “Quando a mente adoece”, onde discorre sobre as doenças psíquicas ligadas ao mundo do trabalho. Aqui fica o link da entrevista:

http://www.jornaldenegocios.pt/weekend/detalhe/psiquiatra_pedro_afonso_ha_um_endeusamento_do_trabalho.html

Não querendo de forma alguma imiscuir-me no campo das doenças da mente, gostaria de tecer algumas considerações alavancado nesta entrevista.

 

Assim, quando nos deparamos, por exemplo, com o brutal avanço na área das comunicações seria de esperar que isso significasse apenas uma forma mais célere e eficaz de dialogar entre pares ou de passar informação aos de fora. Com efeito, hoje em dia o mundo está totalmente conectado e tal reverte-se num ganho temporal considerável. Mas o “mercado laboral” não se contenta com esse ganho. Esse avanço é utilizado de forma perversa… Com a facilidade comunicacional surgiu também a obrigação dos trabalhadores estarem permanentemente contactáveis. Já não existe “tempo de qualidade”, de abstração, ou folgas laborais. Onde quer que se encontre, qualquer que seja a hora ou dia da semana, existe sempre um telemóvel, um computador, um GPS. Com isso extingue-se o direito do trabalhador em separar a esfera privada da profissional.

 

Para além deste vínculo laboral de disponibilidade permanente, que agora parece instituir-se, como se de um laço de sangue se tratasse, existe também uma exigência atroz sobre a produção do trabalhador. E esta é vertical. Ou seja, hoje em dia a pressão não se faz sentir apenas na base da pirâmide, mas também sobre as direcções e chefias intermédias, às vezes até com maior incidência. A política da exigência cada vez maior prosperou, alastrou e colou. A mesma é multiplicada e repetida até a exaustão pelos vários níveis hierárquicos. O que exponencia a pressão para alcançar sempre mais.

 

Por último, uma ressalva ao famoso “multi-tasking” que os trabalhadores são hoje obrigados a desempenhar. Esta é uma das maiores falácias no mundo do trabalho. Gosto de definir este conceito como a capacidade de realizar várias tarefas simultaneamente de forma errada ou incompleta e que implica depois o dobro do tempo normal para as corrigir ou completar. Temos também a polivalência, conceito complementar e basilar do “multi-tasking”, que significa a capacidade de esmifrar o trabalhador até ao limite das suas capacidades, colocando-o a desempenhar inúmeras funções, muitas das quais extravasam a sua categoria ou posto.

 

A desculpa do avanço tecnológico serviu para a maioria das empresas reduzirem os seus quadros de assalariados de forma brutal. O “multi-tasking” e a polivalência são factores que propiciaram um caminho para essa desculpa. Ironicamente os trabalhadores que resistiram e se mantiveram no activo trabalham hoje mais horas e é-lhes exigido muito mais, independentemente das ferramentas que deveriam facilitar as tarefas quotidianas.

 

Em suma, todos os trabalhadores são obrigados a produzirem mais, estarem sempre disponíveis, permanecerem mais horas no local de trabalho e serem iminentemente competitivos, quer com restantes empresas do sector, quer dentro da própria estrutura. Esta última condição cria, evidentemente, um enorme desconforto no relacionamento entre colegas de trabalho. Julgo que é claro para qualquer um, que a lógica competitiva dentro de uma mesma empresa ou serviço criará tensões entre colegas e deve ser desaconselhada. A aposta deve ser num modelo de cooperação e complementaridade. E não é preciso ser psiquiatra para perceber isto.

 

Esta pressão constante sobre os trabalhadores é inadmissível. Se o objectivo é alcançar uma maior produtividade a forma como se tenta lá chegar é contraproducente. Como afirma Pedro Afonso: “se as empresas querem aumentar a produtividade, ponham os funcionários a trabalhar menos horas”. Já escrevi precisamente isso neste canto da blogosfera, quando afirmei ser um mito que mais horas de trabalho signifiquem maior produtividade (http://marealta.eu/essa-vidinha-14827).

 

Acrescento apenas que trabalhadores mais felizes, e reconhecidos nas suas funções, tendem a produzir mais e melhor. Existem vários exemplos disso pelo mundo fora e mesmo entre fronteiras. Muitas empresas apostam em conceder alguns privilégios extra aos seus funcionários e dão o seu investimento por muito bem empregue, colhendo depois os frutos do aumento da produtividade, rigor e qualidade do trabalho. Que se tratem os trabalhadores com mais dignidade, tendo presente que em tudo na vida há limites. E os limites laborais estão claramente a ultrapassar o humanamente possível.

 

Montijo, 11 de Novembro de 2015